Últimas lembranças - Final [Quando decidi morrer]

Morri não por querer chamar atenção que nunca tive, pelo contrário, muitas vezes acho que chamei atenção até demais com algumas escolhas boas e algumas nem tanto, não era uma mera sombra, gostava de viver, receber atenção e mais ainda fazer com que as pessoas sentissem-se bem quando estavam comigo, isso me dava muito prazer, o servir.

Partirei sabendo que deixei uma dor imensa no coração daqueles que um dia amei com toda sinceridade e que me amaram – amor esse que por vezes me deu forças pra continuar –, mas infelizmente não consegui, fui um daqueles que tristemente não deu certo e desistiu de tudo, a vontade de abandonar tudo já não era de hoje mesmo, talvez fosse essa a razão porque lutei tantas vezes com um imenso afinco.

A gente nunca deseja que aqueles a quem amamos sofram e muitas vezes egoistamente queremos que o mal que lhes tomou venha sobre nós, as vezes até mesmo nos afastamos sem compartilhar o que sentimos para que não sofram ainda mais, mas esquecemo-nos que a dor que queremos-lhes evitar é a mesma que eles não querer pra nós.



Mas infelizmente uma hora teria de partir, se esse era o momento certo? Não sei, mas pra mim foi o mais acertado... Sei que fui egoísta e covarde, mas já não aguentava ser motivo de tristeza pra meus amados e para Deus, motivo de vergonha. Espero que ao menos com o que decidi, possa os ter aliviado de um peso tão grande como sei que fui.

Parto sabendo que jamais serei esquecido, pois conquistei lugares privilegiados no coração de muitos, sem levar mágoa alguma comigo dos que muitas vezes me apedrejaram inflamados pela inveja e que até mesmo conseguiram me derrubar.

Num atrevimento, peço ainda, que vivam nem de mais, nem de menos, apenas vivam suas vidas buscando sempre serem melhores, entregando-se a cada conquista e amor. Espero que de algumas forma possa lhes ter ensinado o valor da vida com a dor que sei que estão sentindo com minha perca.
Espero ainda que minhas boas ações e paixão pelo que fazia falem muito mais alto aos seus corações do que todos meus erros, que apesar de não poderem ser enumerados, não foram maiores do que minhas beatudes, que vocês os possam lançar no lago do esquecimento, assim como Deus lançou tudo que fiz de bom no momento em que resolvi tomar Seu lugar.

Que vocês sejam pessoas integras no trabalho ou aquilo que vier as mão para fazerem, pois estarão fazendo-os para Deus e não para o homem que não tem muitas vezes capacidade de enxergar as qualidades alheias até perder essa pessoa. Sempre dei o máximo de mim, buscando fazer além de minha obrigação, pois o que faz apenas sua função não passa de um inútil, mas também sei que tudo que fiz foi insignificante, porém essencial com que eu tivesse feito, já que ninguém o faria por mim.

Não espero que meu funeral esteja cheio, afinal, deixei de ser ombro para muitos dos amigos que necessitavam, não fui presente o suficiente e falhei por diversas vezes, mas aos poucos que estão, meu apreço não terá como alcançar suas generosidades.

Peço que ao ouvirem essas palavras, diante de meu corpo já submerso na terra vocês ainda tenham motivos pra se alegrarem, pois são vocês os que conseguiram vencer, vocês alcançarão seus objetivos, serão diferentes do derrotado que aqui jaz por sua grande autocomiseração. Espero ainda que meus órgãos tenham sido doados para que aqueles que têm sede de viver possam continuar lutando até que o fôlego lhes falte.

O degrau que agora alço é bem mais alto que um dia almejei, infinitamente mais, e por ser tão alto acabei despencando do topo de onde me pus, caindo num imenso abismo de onde já não há mais luz, tudo é escuro. Sinto já a morte me envolvendo, ela se manifesta dentro de mim e por isso mesmo essas palavras escrevo, tudo cada vez mais perde a cor e percebo que minhas vistas já não distinguem a luz do sol com o luar, tudo está cada vez mais escuro e oprimente.

Quando Ketellyn terminou de ler aquelas palavras, não houve uma pessoa que não tivesse se sensibilizado com as palavras que haviam sido lidas, elas tocaram de tal forma, como uma espada de dois gumes, que alcançara a divisão da alma e do espírito dos que ali se encontravam. Não eram poucos, muitos haviam ficado sabendo do trágico homicídio cometido pelo jovem pelo noticiário e haviam vindo de várias partes para prestar honras a sua memória, é claro que ele não lembraria da maioria que ali estavam, caso os pudesse ver, mas todos que ali compareceram sabiam muito bem de quem se tratava aquele corpo que havia sido enterrado sob a terra fofa, pelo qual repousaria um verdejante tapete. Alguns haviam ido apenas por sentirem-se obrigados a comparecerem, mas ao ouvir aquelas palavras perceberam o quanto necessitavam ali estar.

Não fora fácil seus pais terem liberado para que aquela carta fosse lida e apenas após seu enterro, mas sua irmã mais nova conseguira com muito custo obter permissão para compartilhar com todos toda a paixão que o irmão mais velho exprimira até mesmo na hora da morte. Não foram permitidas com que homenagens fossem realizadas, pois seriam muitas e seus pais não aguentariam tanto.

Na memória de todos estava bem patente a trágica forma com que ele se suicidara. Toda sua família estava reunida naquele dia, já que era feriado, inclusive os namorados das irmãs, quando de repente os paramédicos chegaram e invadiram a casa, assustando a todos que ficaram sem entender o motivo de ter parado aquela ambulância frente a casa ter a mesma invadida por pessoas desesperadas atrás de algum suicida, num subto lembraram-se dele e depois de arrebentar a porta de seu quarto, encontram-no com o celular de onde ligara, o RG que declarava ser doador e a carta que havia escrevera com ajuda do Word, sem nenhum erro gramatical ou de concordância, havia sido perfeccionista até o último minuto.

Quem o tivesse visto naquela manhã ensolarada, jamais teria dito que isso aconteceria, nem anteriormente já que não costumava isolar-se, nem se trancar no quarto, ou seja, não existiam motivos aparentes para o que o que viera a fazer, sempre fora muito comunicável e podia ser encontrado a qualquer hora pelos amigos dos quais tinha o maior prazer em lhes ser útil, mas num instante tudo acabara. Ele havia ligado para a SAMU informando que teria alguém morto, contabilizou o tempo e no momento certo tomara algo que o fez seu coração parar aos poucos, ele ainda batia quando ouviu algumas pessoas tentando abrir a porta e desesperadamente rompe-la quando finalmente conseguiram arrombá-la seu coração deu a última batida, conseguiu ainda esboçar um sorriso. O motivo de se ter se matado assim, foi que não queria chocar a família com uma cena trágica de enforcamento ou sangue transbordando devido a cortes das artérias.





Ósculos e amplexes,

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