Últimas lembranças I [Quando decidi morrer]

Sabe, sempre fui uma criança muito ativa, subia em árvores, vivia caindo e me machucando e levantando mais uma vez pra me divertir, não importasse quantas vezes ainda caísse, teve aquela vez que caí do balanço por que me resolvi balangar com os olhos fechados, a vez em que fui atropelado e milagrosamente sobrevivi sem nenhum arranhão mesmo a roda do carro ter passado sobre mim, a que caí no banheiro e cortei meu queixo quando pulava pra pegar o xampu, pra falar a verdade foram várias.

Raras não eram as vezes que deixava meu pai louco, vivia estressando-o quando mexia em suas coisas, a verdade era que aquilo me dava certo prazer. Eu aprontava muito e acabava metendo minhas irmãs no meio das travessuras, além e pintar o sete eu o cozia também, já que boa parte de minhas invenções tinham haver com criar um prato novo.




Desde cedo fui uma criança muito inteligente que tinha conhecimento de tudo que fazia, coisas erradas ou certas, dizem que criança é inocente até os três anos e não sabe o peso que tem suas ações, mas me lembro da única vez que vi minha vó por parte de mãe, estava chovendo no dia, tudo escurecido, e pra variar pingava dentro de casa, nessa lembrança minha avó parece névoa, como se tudo não passasse de um sonho, minha mãe disse que eu era muito pequeno para lembrar disso, mas lembro-me muito bem.
Eu sempre soube do peso de minhas escolhas, mas não foi isso que me fez optar pelas certas, por muito tempo fui alguém extremamente egoísta que aos poucos foi perdendo a cega admiração que possuía das irmãs mais novas, alguém um pouco difícil de lhe dar.

Dizem que quando estamos diante de uma escolha, seja ela boa ou má, temos a chance de fazer ou não, ainda que o pensamente seja muito rápido, há sempre algum milésimo antes da ação, em que alguém que matou os próprios pais poderia ter não realizado aquela ação, não ter cometido aquele crime, nem dito que sua irmã não merecia confiança. A voz que ouvimos para não fazer o que trará consequências ruins chamam-na de consciência, mas na verdade essa voz é do Espírito Santo, acredite você nEle ou não – não é pelo fato de você não crer em Deus que Ele deixará de existir.

Sempre soube que o tempo também tem peso, cada vez que vai passando leva uma parte de sua alma, se você gastou-o com boas ações no fim ela se completará como um quebra-cabeça, se perdeu-o de qualquer outro modo, sua vida seguirá despedaçada.

Meu desejo sempre foi ser uma pessoa melhor, mas desejar não é a mesma coisa que ser, pois quando abria minha boca, iam-se por terra todos meus desejos de ser diferente, consequência das decisões que tomara quando ainda era muito pequeno, reflexo que me ofusca até hoje.

Porém, tudo que desejei consegui, tudo que minha alma almejou desde a tenra infância consegui alçar, os lugares que trabalhei, os cargos que consegui, as pessoas que me relacionei, tudo que queria sempre tive – aquilo que desejava ardentemente.

Sei de minha capacidade intelectual, de minha perspicácia, talento, controle, não apenas por que ouço as pessoas elogiarem ressaltando minhas qualidades, louvando-me por aquilo em que realmente sou bom, mas porque desde pequeno soube que não seria mais um na multidão, seria alguém com propósito, que nasceu para marcar a vida daqueles que conheceria. Realmente marquei, a cada um dos que pude conhecer, alguns pra mal, mas a grande maioria pro bem.

Sempre tive muita facilidade em fazer amizades, nunca fiquei sozinho, isolado dos outros, mas também nunca fui sedutor, capaz de arrebatar uma multidão ao mesmo tempo, porém sempre soube ganhar a todos aos poucos com minha presença forte e marcante.

Tomei uma decisão muito importante no passado, perder a timidez, isso me fez avançar muito, mas o que não tinha percebido é que sempre tive essas características que hoje me destacam tanto, mas quando tinha vergonha de me expor não as havia percebido, pois mesmo quando muito retraído, sempre conseguia o que queria e tinha alguém por perto de mim.

Me apaixonei muitas vezes, isso nunca foi algo difícil pra mim, assim como também tenho facilidade em me decepcionar com as pessoas, como perder a amizade de uma pessoa muito especial por não querer ficar comigo. Poucas não foram às vezes em que enamorei, mas pequenas as que tive coragem de me declarar e me entregar de corpo e alma a essa paixão, infelizmente a intensidade com que me entreguei foi a desejos insanos que alimentaram meu coração de sentimentos ruins, dos quais hoje minha boca fala por deles estar transbordante.

Lembro-me ainda de meu primeiro beijo, com uma garota que não conhecia assim tão bem, fiquei um pouco nervoso, mas sabia que tudo daria certo, aquilo foi tão bom que ela tornou-se muito especial pra mim, mesmo que ainda jamais tenha ficado sabendo disso e percebido justamente o contrário, jamais esqueci o momento em que nossas línguas se encontraram e meu corpo desejou o dela cada vez mais próximo.

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