Vida pós morte [Parte I]

Grave acidente em São Paulo envolvendo cinco jovens

“O meu filho estava voltando do trabalho, quando de repente um carro desgovernado dirigido por um bêbado acertou ele, bem na porta de casa!”
“Maria de Lourdes Mendez chora e mal consegue falar ao recordar do trágico acidente envolvendo seu filho, na manhã deste sábado, devido à imprudência de outro jovem, a comoção lhe toma por completa.”

O dia era como outro qualquer e a tarde ia passando preguiçosamente, desemborcando num belo crepúsculo que traria consigo a noite, não era muito de costume Cadu assistir a TV, preferia ficar diante do seu Mac, porém naquele dia, decidira dar um descanso para o pobre coitado e ficou a tarde com os pais assistindo, quando de repente surge um comercial diferente na tela.





Um cachorrinho triste esperando pelo dono que não aparece, os dias vão passando até que surge alguém de quem ele vai de encontro com toda felicidade, o cara apenas olha meio surpreso e vai embora sem dar muita atenção. O bichinho desprezado volta pra casa triste, sobe na poltrona e então aparece um retrato com ele nos braços de seu dono, até surgir a mensagem: "Quando você doa seus órgãos, uma parte de você continua viva. Seja doador."

- Mãe, pai! Quando eu morrer quero que doem meus órgãos!
- Está bem! A gente vê! – Disse a mãe levando na esportiva.
Porém aquele comercial tocou de tal forma Cadu, logo ele que nunca havia pensado sobre nada disso, de que depois que morresse poderia deixar mais do que ações, poderia deixar literalmente um pouco de si em outras pessoas, isso o fez passar o resto do dia ponderando sobre o assunto.

Perto das 20h jantou, como sempre, muito brincalhão com os pais, fazendo-os rirem a todo instante com suas gracinhas. Depois de tomar banho, aprontou-se para ir pro trabalho, sua jornada ia até às seis da manhã, pra sua sorte morava próximo ao serviço, apenas alguns quilômetros.

Beijou os pais e foi-se, quando fechou a porta passou novamente a Campanha para doação de órgãos da Santa Casa – produzida pela YR (Young & Rubicam Brasil), empresa do Roberto Justus – o que fez Dona Lourdes recordar-se de sua promessa, "Quê isso? Meu menino é muito novo pra pensar nessas coisas, ainda tem muito que viver. Tem que terminar a faculdade, casar e me dar netos!", e ficou sonhando com o futuro brilhante de seu filho tão inteligente e esforçado, devaneou tanto que começou a sorrir.

“Bem, meia-noite, essa hora os pais já devem estar dormindo” – pensou Cadu observando seu relógio, riu-se da folga dos mesmos que podiam descansar enquanto ele laborava, agora eles podiam descansar o que um dia tinham conquistado com muito suor. Haviam lutado e feito de tudo por ele, e agora ele estava ali, construindo seu futuro.

O sol começou a sair na janela da cozinha, despontando e aos poucos revelando sua luz, fraca ainda, mas muito acolhedora. Neste instante o galo desatinou a cantar.
- Dessa vez você não conseguiu me derrubar da cama! Há, há! Levantei primeiro que você!
- Primeiro que quem amor?
- Ah! Oi amor! – Beijaram-se apaixonadamente, mesmo com o passar dos anos, continuavam amando-se na mesma medida que quando namoravam, a chama do primeiro amor sempre estava acesa, mesmo fazendo mais de trinta anos que estavam juntos, casaram-se quando Lourdes tinha apenas 16 anos e Marcos 18. – Bom dia! Estava falando do galo.
- Bom dia, minha querida! Há, há, você e esse galo! Hum, mas estou sentindo um cheirinho muito gostoso no ar.
- É que já que levantei antes das galinhas resolvi aproveitar pra preparar o bolo preferido do Cadu...
- Um bolo de milho! É o meu preferido também.
- Eu sei amorzinho! – Lourdes piscou o olho pra o marido em sinal de concordância.

Deixaram a mesa fartamente preparada e foram assistir TV enquanto aguardavam o filho chegar, conforme assistiam o jornal constatavam a cada noticia que o mundo estava ainda pior e mais violento. Dona Lourdes dizia apenas “Meu, Deus!”, enquanto Seu Marcos ponderava sobre as notícias.

Na verdade a atenção de Marcos estava voltada totalmente para o filho, ele sabia que demorava em torno de vinte minutos – dependendo das condições do trânsito quando ele não ia direto pra faculdade, pra chegar em casa – porém já passara dez minutos, ele então soube que estava na hora de ligar pra Cadu.

Prontamente pegou o telefono e discou o número do filho.
- Duzinho!
- Hey, papis! Beleza? – Marcos pode ouvir a suave risada de seu filho do outro lado da linha.
- Tudo! E você meu filho onde está?
- Ô, pai! Já disse pro senhor não se preocupar tanto. Só porque demorei uns minutinhos!
- E porque demorou? Você sabe que sempre me preocupo.
- É que estava conversando com os colegas do serviço. Pai adivinha onde estou agora?

Dona Lourdes havia se levantado para esquentar o leite do seu filhinho e por o café pra esquentar quando de repente ouve o som de pneus derrapando, grito e um forte estrondo que quase a vez perder o equilíbrio devido a forma inesperada que a pegou, por pouco ela não derruba seu bule predileto, presente de aniversário de casamento que sua mãe lhe dera pouco antes de morrer.

"Nossa, mas esse barulho foi bem forte, deve ter sido aqui perto."
- Querida! – Na hora que Lourdes ouviu seu esposo chamar-lhe sentiu um raio atravessar a espinha e acabou largando o bule de cerâmica que espatifou-se em vários pedaços no chão.

Quando deu por si já estava na porta da frente de casa e viu seu marido correndo para o portão, ao chegar na rua seus olhos mal puderam ver o que estava acontecendo, ela sentiu tudo escurecendo e mal acreditava no que vira, seu esposo trazendo seu filho –seu único e amado filho – nos braços ensanguentado e todo machucado.
Os paramédicos conseguiram depois de algumas tentativas de reanimar Lourdes, mas quando ela finalmente despertou, gritava histericamente:
- Meu filho morreu, meu filho morreu! Eu vi, eu vi! Alguém matou meu filho! – os paramédicos tiveram que sedá-la com calmante para poder absorver com menos impacto a pressão do que teria de ouvir, já que seu estado encontrava-se alterado.

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