Vida pós morte [Parte II]

Mais a tarde, quando Lourdes despertou, ainda zonza, mas bem mais controlada, seu marido pode, enfim, contar-lhe o acontecido. Ele ainda estava a falar com o filho no celular quando o mesmo disse para que ele adivinhasse onde estaria, depois de ter chutado errado, Cadu disse que estava "na frente", foi aí que suas palavras foram cortadas, Marcos disse que só lembrava depois já estar com o filho nos braços e ver Lourdes desmaiar enquanto ele gritava pra que alguém pelo amor de Deus chamasse os paramédicos o mais rápido possível. Ele contou que por estar gravemente ferido, Cadu estava internado na UTI.

- Amor! - Lourdes observava o olhar sofrido do marido. - Tem mais alguma coisa que você queira dizer?
- Não, foi só isso. – Disse ele de um jeito seco, mas deu para notar que não sentia-se muito bem em falar daquela maneira com a esposa que tivera a mesma perca.





- Não adianta você me esconder, pois se eu descobrir depois vai ser pior. E naquela hora que você gritou?
- Aquela hora... – “Não sei se falo”, Lourdes percebeu que Marcos travava uma grande luta interna para ver se devia ou não falar, ele começou a suar, mas parece que por fim vencera o desejo de não esconder nada de sua esposa, por mais que doesse ela deveria saber. – É que eu vi... o momento em que o Duzinho... foi atropelado... Eu vi quando aquele maldito carro acertou em cheio nosso bebê, jogando ele pra calçada.
Lourdes começou a respirar com dificuldade, enquanto o marido falava como se ainda visse a cena.
- Depois de eu ter errado, por intuição, abri a cortina e dei uma olhada para fora, foi quando veio o carro... e... tudo ficou... estranho...

Embora não saíssem lágrimas dos olhos de Marcos, como os montes que rolavam dos seus ao pensar no que acabara de ouvir, ela sabia que o marido sofria muito mais, podia ver o olhar profundo de dor, junto com muita raiva de si mesmo por não conseguir chorar a dor que sentia pela perca incomensurável que haviam sofrido.

Ela então abraçou Marcos que estava com olhar perdido, arrebatadamente preso naquela trágica lembrança, apoiou então a cabeça do marido no ombro e disse suavemente em seu ouvido:
- Meu amor, você não precisa se odiar por não conseguir chorar, sei que seu pai te ensinou que homem não chora, mas você não precisa se odiar por isso. Tudo bem, eu entendo o que você está sentindo...

- Não, você não entende! Não entende nada! – Interrompeu-a Marcos aos gritos – Você não sabe o quanto maior se torno essa dor se eu não a posso extravasa-la através de umas miseras lágrimas. – E apertou ainda mais os braços em volta de sua esposa.
- Você não sabe o que é passar a vida odiando o próprio pai por ter me proibido de chorar quando perdi minha mãe aos seis anos, porque homem não chorava! E ainda no outro dia, e daí pra frente, fingir que nada tinha acontecido, labutando sob o sol forte na roça. Você não sabe o que é não ter coragem de ter dito que odiava o próprio pai quando ele merecia ter ouvido isso.

Ele apertava os braços em torno de Lourdes com mais intensidade ainda, como se ela pudesse escapar-lhe caso não segurasse com força suficiente, lembrou que na última vez que vira sua mãe com vida estava ao seu lado enquanto passava por mais uma de suas crises devido a leucemia, só estava ele e os meninos mais novos, seu pai havia viajado para São Paulo, os irmãos mais velhos de 18 e 20 já eram casados, os gêmeos de 15 e o outro de 16 trabalhavam, restara ele, os irmãos de 2, 3 e os gêmeos de 5 anos, os de 7, 10 e 11 anos haviam ido até a cidade mais próxima, que distava 15 léguas, em busca do médico para ajudar a mãe. Ele ficara ali, ouvindo-a gritar tão pavorosamente de dor que os mais novos começaram a chorar, ele tentou acalmá-los levando-os pra fora, disse que estava tudo bem e depois de certo tempo conseguiu com que ficassem brincando com as galinhas.

Quando voltou tudo estava em silêncio, poderia o médico ter chegado? Não, foi a resposta que deu a si mesmo, ao entrar no quarto da mãe a viu delirando, quando ela percebeu que estava ali pediu que segurasse sua mão, ele foi se aproximando com cuidado com medo de que qualquer passo brusco pudesse fazer com que a dor voltasse, quando finalmente tocou sua mão que estava estendida, a viu cair, ele ainda levantou-a novamente e apertando com toda força possível, mas era tarde demais. Seu desespero foi tamanho que começou a gritar, achava que a culpa fora sua por não ter conseguido segurar a mão da mãe, impedindo que se fosse, por isso apertava a esposa cada vez mais. Quando os irmãos chegaram com o médico Marcos estava emudecido agarrado ao braço da mãe e os menores em sua volta chorando. No outro dia seu pai chegara, ficou sabendo da triste notícia, mas não demonstrara nenhuma reação, havia apenas preparado o enterro, como prepara um coveiro, no velório ele já não aguentando mais esboçou uma cara de choro que vista pelo pai, puxou-lhe de lado e disse que não era para chorar, ele tinha que ser forte, pois não era “mulherzinha” e depois de tudo a enterrou, ali, ele percebera de quem realmente fora a culpa.

Sem que ele mesmo percebesse, em sua face começou a rolar uma gota salgada, seguida de outra e mais outra, aos poucos estava aos prantos, só deu-se conta depois de sentir o gosto salgado. Sua esposa pegou-lhe a cabeça e vendo seu rosto embebe disse suavemente, “chore tudo o que tem pra chorar” e recostou-a ternamente em seu colo, ela não quis enxugar suas lágrimas, pois sabia que ele as necessitava derramar, aquilo certamente aliviaria sua alma. Marcos chorou como uma criança e soltou altos gritos de dor, gritos assustadores. Ele chorou a dor que havia guardado durante anos, o rancor que sentia pelo pai que sempre o tratara tão duramente, chorou como se houvessem rasgado seu peito e tirado de lá um imenso pedaço do coração, ele já respirava com dificuldade até que já sem lágrimas passou a soluçar.

Depois que Marcos se acalmou Lourdes lhe disse que ele deveria ter dito o que sentia pelo pai, porém ele corria o risco de deixá-lo ainda pior e que deveria saber melhor que ninguém o quanto o pai havia sofrido, do seu jeito, calado, sem nunca se abrir com ninguém, ele pelos menos poderia odiar alguém.
- Com o tempo você amadureceu e casou comigo, mas e seu pai que acabou ficando abandonado, sozinho, lá em Pernambuco, por todos seus treze filhos?

Aquilo o fez olhar para si mesmo e finalmente entender toda dor e sacrifício que seu pai havia tido para criar todos aqueles filhos, mesmo com a perca de sua companheira que tanto amava. Lembrou-se então que o pai nunca procurara outra esposa e entendeu o porquê do mesmo insistir que todo dia 2 de novembro visitassem o túmulo da mãe, mesmo parecendo não demonstrar sentimento algum.

Agora sabia o quanto seu velho sofrera. Ele havia sido tão injusto e não fora visitá-lo no leito de morte quando havia pedido que aparecesse, segundo disseram os irmãos, ele protelara até não dar mais tempo, mesmo com a insistência de ligações pedindo que fosse urgentemente, dizia apenas que não poderia ir devido ao serviço, já que não tinha ninguém que o cobrisse, ele fora o único a não comparecer. Parece que podia ouvir seu pai lhe pedindo perdão com o último fôlego que restava, suas últimas palavras haviam sido para que Marcos o perdoasse.
- Não pai, eu que lhe peço perdão, me perdoa pai! – Disse ele fazendo reverência a memória de seu pai.
- Sei que no céu não há lágrimas, mas creio que agora onde ele estiver lá em cima, pode derramar ao menos uma lágrima de alegria, por você o ter perdoado.

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