Vida pós morte [Parte III]

O jovem autor do acidente desta manhã é Fabiano Montes, de 20 anos, mas conhecido pelos amigos como Fabinho Baladas – devida a constância que tinha de organizar eventos. Ele voltava de uma rave PVT indoor na da Região Metropolitana de Belo Horizonte /MG, que é constituída por 34 municípios, a terceira maior aglomeração urbana do Brasil - um dos lugares em que essas festas estão fora de controle e tem se multiplicado em ritmo acelerado nos sítios locais, bem como no interior. Fabinho e mais três amigos, todos na faixa entre 17 e 23 anos, voltavam da balada em que ele mesmo organizara, todos os jovens estavam embriagados, inclusive Fábio que dirigia o carro, um Uno 2011.

Segundo relatos de amigos, depois de festa que se iniciou às 18h de sexta e que teria terminado por volta das 5h – o que é estranho para um tipo de festa que não dura menos que 12 horas – o jovem havia dito ter que encerraria mais cedo, pois como teria prova na faculdade na segunda de manhã, precisa se recuperar logo para poder estudar. Eles ainda afirmam que teriam dito para ele esperar para alguém conduzir o carro já que ele estaria bêbado, mas o mesmo disse sentir-se bem e rumou à casa que morava com os amigos em Araraquara.




Amigos teriam dito ainda que Fabinho havia falado estar bem e que aguentaria levar todos para casa, infelizmente, não foi o que ocorreu. O acidente fatal ocorreu por volta das 7h da manhã, Fabinho acabara de sair da Av. Santos Dumont quando perdeu o controle da direção e depois de acertar o jovem Carlos Eduardo Mendez de 23 anos, que voltava do trabalho do Centro Industrial, o carro acabou atingindo uma árvore.

Cadu, como é tratado pelos familiares, está em estado grave na UTI, já os quatro rapazes não conseguiram sobreviver ao impacto, mesmo a unidade do SAMU tendo chegado com urgência ao local. O único que estava acordado no momento do acidente era Fabinho, que conduzia o veículo. Há ainda indícios de que os jovens teriam consumido LSD e Ecstasy, segundo investigações do departamento de entorpecentes da polícia.

Essas drogas são muito consumidas nesses tipos de festas já que permitem viajar ao som de músicas psicodélicas, pior ainda quando combinadas, pois causam efeitos psíquico-físicos. O LSD é uma droga muito forte, ela causa alteração da percepção visual e sonora e aceleração dos pensamentos, aguça os sentidos permitindo ver cores mais vibrantes e sons envolventes, seus efeitos tem duração de 8 a 12 horas. Já o Ecstasy deixa o corpo mais leve, dá sensação de que todos são amigos, despertando uma forte atração física por todos, deixa a pessoa elétrica pra dançar a noite toda e tem duração de 4 a 8 horas.

Apesar das duas não viciarem, causam fortes efeitos como: náuseas, desidratação, hipertermia, hipertensão, paranoia, alteração da noção temporal e espacial, confusão, pensamento desordenado, despersonalização, perda do controle emocional e ainda podem se prolongar repetindo-se três horas depois os mesmos efeitos ou até um ano depois. Os policiais da Delegacia de Repressão a Entorpecentes informaram ainda que há quinze anos atrás (1995) não constava nas estatísticas da PF uma única apreensão de ecstasy em todo o território nacional.

“Vamos agora para o nosso link direto da casa dos pais de Cadu com a nossa repórter Suzana que entrevista neste momento a mãe que tenta emocionadamente contar o ocorrido.”
“Meu Deus, por quê?...” – O choro de Lourdes torna-se inda mais descontrolado o que quase impossibilitou a repórter Suzana de continuar a reportagem, mas por insistência de Lourdes que afirmava ter de contar o ocorrido para alertar outras mães, deram procedência a mesma.
"Meu filho tinha acabado de sair do trabalho..."

Lá pelas 17 horas a imprensa começara a chegar e todos queriam uma exclusiva, Marcos antes de derramar-se em lágrimas havia combinado com uma repórter que lhes concederia uma entrevista, mas depois do que aconteceu e vendo o estado em que a esposa estava, achou melhor desistir de dar entrevistas, mas quando disse a mulher foi justamente o contrário que ela lhe sugeriu.
- Amor, precisamos falar, pra conscientizar outras pessoas.

Agora ele apenas assistia sua esposa aflita, soluçando e falando com muita dificuldade, mas insistindo em narrar o acontecido para ver se conseguia despertar as demais pessoas e assim evitar outras catástrofes.
- Vocês não fazem ideia da dor que estou sentindo agora, mas é por isso mesmo que estou falando o que aconteceu, porque essa dor que sinto que parece que jamais terá fim é a que quero evitar...
Depois disso, Dona Lourdes não conseguiu dizer mais nada e com ajuda do esposo foi para o quarto, enquanto Suzana encerrava o link ao vivo da reportagem, logo depois o pessoal da produção começou a desmontar os equipamentos e aos poucos retiram-se, os vizinhos meio receosos de conversar com Marcos, foram aos poucos se aproximando. Ele ficou ali até altas horas, na sala, conversando com os vizinhos, até receber a ligação que o estado do filho já estava melhor e que a partir das 6h poderiam visitá-lo.
- Mas a gente não pode ir antes desse horário, como, agora mesmo?
- É melhor não, apesar do quadro dele estar estabilizado, ainda não está em condições de receber visitas no momento.

No dia seguinte, por volta das 5h da manhã Lourdes e Marcos estavam de plantão no corredor de espera. Quando o médico que cuidava de seu filho chegou lá pelas 5:30h, perguntou pra enfermeira de plantão quem que eles esperavam e ficou surpreso ao saber que era ele mesmo. Colocou o jaleco e logo foi recebê-los em sua sala.

Ele disse que o quadro de Cadu havia se estabilizado, ele já não tinha hemorragia e que realmente era um milagre ele ter sobrevivido, depois de sofrer um acidente tão grave.
- Doutor, a vida do meu filho é uma sucessão de milagres, desde o nascimento dele até agora. Mas me diga ele está melhor? – Perguntou Lourdes aflita.
- Está sim!
- Então é isso que importa. Eu quero vê-lo!
- Mas senhora, a enfermeira ainda não verificou o estado dele agora e antes eu preciso...
- Eu tenho que ver meu filho agora. – Ela saiu sem mesmo esperar pelo marido e correu para o quarto que a enfermeira com tanto custo havia lhe dito qual era enquanto aguardavam pelo médico.

De principio começou andando rápido, depois quando olhou para trás e quando viu que já não tinha mais ninguém lhe vendo, começou a correr.
- Quarto 32... Quarto 32... “Bem ela disse que tínhamos que conversar primeiro com o médico e eu já tinha conversado o suficiente, não precisava ouvir mais ladainha”, pensava ao virar uma curva, foi então que avistou o quarto 32.

Quando entrou viu seu bebê, ali, inerte em cima da cama, com o braço e perna esquerdas engessadas e o rosto todo arranhado, nem parecia aquele garoto atlético e bonito que fazia sucesso com as garotas, quando se aproximou e viu que ele estava mijado por reflexo aproximou-se para limpá-lo, mas quando chegou perto deu por si o que tentava fazer. Deixou então os braços cair com cuidado sobre o corpo inerte, mas ainda quente do filho e desatinou em choro.

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