Vida pós morte [Parte IV]

Quando seu esposo chegou com o médico ela tentou falar em meio às lágrimas o estado em que o filho estava, conseguiu dizer apenas "que humilhação Marcos", e o médico sentindo o odor acionou a enfermeira para ir limpá-lo.
- Peço desculpas por isso Dona Lourdes, mas eu tentei lhe avisar que a senhora deveria esperar a enfermeira verificar como seu filho estava antes da senhora e seu esposo poderem vê-lo.

Quando a enfermeira chegou tiveram que sair do quarto, porém Lourdes viu sua cara de má vontade, indignou-se e começou a falar:
- Por que você está olhando com essa cara de nojo e má vontade pro meu filho? Ele merece ser tratado como gente!
- Desculpe se minha cara não agradou à senhora, mas só tenho essa e a coisa aqui está feia mesmo.
- Você só fala isso porque está vendo-o assim agora, mas se o visse antes ia ficar como qualquer outra sirigaita dando em cima do meu filhinho. – Vendo a cara de deboche que a enfermeira fez, Lourdes pode sentir as mãos prontas pra pularem em sua garganta.





- Lindsay! Vá chamar outra enfermeira!
- Mas o senhor acha que não posso fazer isso? – Disse entre os dentes, enquanto mascava chiclete.
- Não é isso que estou dizendo, só vá e vá agora!
- Está bem doutor, não precisa se zangar! – Ela fez uma enorme bola, estourou-a e saiu rebolando. Depois que Lindsay saiu, André virou-se para os pais de Cadu:
- Mais uma vez lhes peço desculpas é que ela é resiliente ainda e não sabe nada de como tratar os doentes.
- Mas então o que ela está fazendo aqui, logo na UTI?
Doutor André aproximou-se dos dois e disse baixinho:
- É que ela é sobrinha do doutor Adriano, um dos diretores.
- E se ele te pegar cochichando você já sabe né André!?
- Ô, Dolores! Estes são os pais do Carlos.
- Prazer em conhecê-los! E me desculpe doutor por não ter vindo antes é que estava ocupada, pedi então pra Lindsay vir, mas vi que foi uma péssima ideia.
- E como! - Disse o Doutor revirando os olhos.
- Mas vamos ver como está nosso paciente.

O tempo foi passando e Lourdes começou a frequentar o hospital todos os dias, alguns dias depois enquanto segurava a mão de seu filho ao orar sentiu Cadu apertar-lhe frouxamente a mão e quando levantou o olhar pode ouvi-lo dizer com muita dificuldade:
- Sabe de uma coisa?
- Não meu filho, pode me dizer! – Disse com uma alegria incontida.
- Eu amo você!
- Eu também e amo muito, muitão, demais! – E abraçou com grande ímpeto o filho.
- Ai, mãe!
- Oh! Desculpe-me querido, mas é que estou tão feliz!
- Eu também, mamis.

Lourdes sabia que o filho poderia ficar tetraplégico, pois depois de ter sido atropelado, havia sido jogado com uma imensa força contra a parede, o que causara um corte na medula entre a terceira e a quinta vértebra cervical. Mas diante da melhora que via ao longo dos dias se negava a crer que isso aconteceria com seu filho. Seu rosto estava melhor, o olho já não estava mais inchado, embora tivesse perdido a beleza de outrora.

Os dias passaram e com eles veio a triste constatação da sombria previsão dos médicos, e, ao invés de melhora, o que se pode ver foi o quadro se agravar inda mais, até que certa tarde Cadu tentou arrastar sua mão, mas por mais que fizesse força não conseguia mover um músculo sequer, depois de tanto esforço acabou por ficar sem fôlego. Lourdes não aguentou ver aquilo, principalmente quando observou uma lágrima rolar discretamente pelo olho do filho, ela então, tomou sua mão e segurando-a entre as suas com muito desvelo focou toda atenção nele.
- Mãe...
- Não precisa se esforçar tanto.
- Não esquece a promessa tá?

Nessa hora Marcos entrou no quarto e sentiu aqueles olhos profundos e brilhantes olhando pra si e o calor que deles emanava.
- Pai, a promessa.
Os olhos de Lourdes marejaram, ela apertou a mão de Cadu e disse pra ele não falar aquelas coisas, porque ainda viveria muito. Ele teve, então, uma forte convulsão, o que fez disparar as batidas do coração e a enfermeira entrou com urgência no seu quarto.

Os pais tiveram que ser retirados, Lourdes ficou desesperada sem entender o que havia acontecido e cada vez aumentava seu desespero, até que o médico por fim saiu e disse que já esperavam por isso, que devido ao forte impacto além de tetraplégico agora surgira uma "fraca" demência, porém por ele também ter atingido a cabeça o quadro poderia e iria se agravar mais e em breve ele entraria em coma.

Os dias confirmaram a terrível profecia do doutor André, já havia passado uma semana que Cadu estava em coma, quando doutor André chamou-os em sua sala e desenganou-lhes.
- A situação de seu filho está muito pior, tentamos de tudo e depois dessas tentativas gostaríamos que ele estivesse bem melhor, embora desde o principie tivéssemos consciência da gravidade do estado de Carlos. A tendência é que ele tenha morte encefálica, mas infelizmente não posso prever quanto tempo tudo isso ainda vai durar, mas vocês sabem se ele tinha algum último desejo?
- Tinha...
- Não! Ele não tinha nenhum, a nãos ser continuar vivo! - Lourdes cortou seu marido bruscamente.

Algum tempo depois André lhes ofereceu a oportunidade de desligar os aparelhos, afirmando que Cadu não sentiria nada.
- Nunca! Só Deus tem direito sobre a vida!
- Nisso eu concordo plenamente com minha esposa.
- Tudo bem, respeito a opinião de vocês! Desculpem-me dizer isso, mas só queria evitar mais sofrimento, já que nesses últimos meses vocês têm sofrido bastante.
- Pois pra mim não há sofrimento maior do que não ter meu filho nunca mais, antes vê-lo ali vegetando, mas vivo, do que nunca mais poder sentir o calor do seu corpo nos meus braços.
- Sim doutor, Deus sabe a hora certa.
- Tomei a liberdade de chamar um agente do CNCDO para conversar com vocês sobre a doação de órgãos que é...
- Sinto doutor, mas temos que ir! – Lourdes levantou bruscamente puxando Marcos pra si e ele despediu-se do médico.
- Tudo bem então, sei que ainda é cedo para falarmos sobre isso.

Quando se retiraram uma lágrima escorreu dos olhos de André, afinal tudo que aquela mãe vinha enfrentando por amor ao seu filho era de atingir qualquer coração e mesmo ele ateu convicto que era, começou a pedir a Deus que aquele garoto se salvasse, embora não conseguisse crer nisso, diante das estatísticas concretas que provavam serem remotas as chances de uma melhora ou mesmo de sobrevivência.

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