Vida pós morte [Final]

Lourdes insistia em dizer que seu filho não havia morrido e que voltaria. O escândalo que fez foi tamanho que tiveram que ceda-la, após Marcos ter chegado, ela apenas ficou observando tudo embaçado com o corpo mole. Viu quando os médicos levaram-no numa maca, como uma simples peça, ela tentou erguer as mãos pra agarrar aquelas pessoas tão ruins, gritava com todas suas forças, mas o máximo que se podia ouvir eram gemidos enquanto ela se retorcia com muita dificuldade.

Algum tempo depois começou a ouvir som de helicóptero, logo depois viu algumas pessoas com uniforme do CNCDO entrarem na UTI, ela viu aquelas iniciais e tentou com muita dificuldade lembrar qual o significado que tinham, sabia apenas que eram importantes, mas suas conexões neurais operavam em níveis muito baixos para que pudesse recordar-se de algo com facilidade, não lembrava nem de ter alguma associação que lhe desse um atalho, tentava fazer uma varredura completa.





- Senhor, parabéns pela sua escolha. – Ela viu quando um dos homens cumprimentou seu esposo e apenas os viu ir-sem levando algumas maletas estranhas, ela precisava lembrar logo, quem seriam essas pessoas...?
- Eu conheço essas pessoas! Querido, por que você está falando com elas? Elas não são boas pessoas, não sei bem por que, mas não são. – Ela sentiu que o efeito estava passando, mas percebeu-se falando como uma bêbada. Aos poucos tudo ao seu redor foi escurecendo, até não conseguir ver um palmo a sua frente.

- Nããããããããããããoooooooooooo! Eu lembrei quem são esses desgraçados!
- O que foi amor?
- Por que você os deixou entrar eles vão despedaçar nosso filho?
- Amor, acalme-se.
Quando Lourdes olhou ao redor, notou que a luz voltara a brilhar e então pode ver que estava em casa, em sua cama. Olhou pela janela e viu que as luzes das outras casas estavam acesas, olhou para o relógio, duas da manhã, percebeu que o grito que dera fora tão alto e assustador que acordou toda vizinhança.

- Você não podia ter feito isso com o Cadu, não podia ter feito isso comigo! Marcos, você não podia ter feito isso com nós! – Disse enquanto esmurrava o peito de Marcos.
- Amor eu precisava, pois fiz uma promessa pro nosso filho e você sabe que quando um pai promete ao seu filho, seja sorrindo ou chorando cumpre a promessa quando sabe necessária ser cumprida...
Depois de ouvir isso, Lourdes, finalmente, percebeu a dor que havia em sua voz e o quanto havia sido egoísta carregando sozinha aquela dor, lembrou o quanto seu esposo havia vibrado com o nascimento de Cadu - é sonho de qualquer homem ter um herdeiro – e sofrera demais vendo seu filho ser atropelado daquele jeito. Os dois abraçaram-se e ficaram ali em prantos...

Seis anos se passaram desde a partida de Cadu, não fora fácil suportar todos esses anos sem a presença tão marcante de seu filho – o problema de pessoas marcantes é que sua ausência é tão perceptível que nos faz sentir sempre incompletos – e assim Lourdes ia vivendo, com ajuda de Marcos, sempre lhe dando forças, conseguiu superar o que imaginara um dia intransponível. Ela sentia-se maravilhada em ter um companheiro tão especial ao seu lado, que mesmo quando o abandonara por completo, ele foi ao seu encontro e levou-a nos braços já que a letargia a impedia de caminhar.

Marcos lhe confessara que em vista da sua insistência em não fazer a doação o médico havia conversado com ele pedindo para que tentasse demovê-la da ideia. Doutor André havia tentado a primeira abordagem com a ela, pois normalmente mãe que é mais sensível para esses assuntos e acaba compreendendo melhor, ele achou que depois de um tempo ela entenderia o que seria melhor, mas sua teoria provou estar errada – mostrando que nada é totalmente correto – ele disse a Marcos que essa era a chance de seu filho continuar vivo, o que ele aceitou, mas teria aceitado mesmo sem que isso fosse dito, pois queria cumprir o desejo do filho, ele ainda tentou conversar com Lourdes, que se mostrou irredutível.

André então marcou uma entrevista de Marcos com a Equipe de Captação de Órgãos, onde foram feitos todos os esclarecimentos, lhe disseram que, caso houvesse, ele deveria aproveitar a morte encefálica, pois não teriam muito tempo depois que o coração parasse, ele assinou o Termo de Doação de Órgãos e Tecidos e quando o fatal dia chegou tudo foi realizado dentro dos conformes. Quando ela olhou o corpo de seu filho naquele caixão não viu nenhuma diferença, pareceu-lhe até que sorria, porém dentro de si havia uma imensa dor, pois ela sentia que os pais que deveriam ir primeiro que os filhos, aquilo não era justo, ter de enterrar o próprio filho, nenhum pai deveria passar por isso, que é a pior dor que existe.

Algo que a atormentou durante algum tempo foi ter percebido que os médicos não teriam tentado reanimar seu filho, já que eles queriam que ele morresse para poder pegar seus órgãos, mas quando finalmente conseguiu falar isso com o marido depois de muita insistência depois de a ver chorar pelos cantos sem conseguir dormir direito a noite ele a acalmou dizendo que tentaram e por diversas vezes exatamente por causa dela, todos no hospital sabiam o quanto ela estava sofrendo e sofreria com a morte de Cadu, porém nenhum dos esforços adiantou. Ela não pode ver, pois neste momento encontrava sedada e acabou perdendo a noção do tempo.

O aniversário de casamento deles estava bem movimentado, Marcos resolvera convidar várias pessoas e fê-la uma surpresa, depois de muito tempo, conseguiu contatar os receptores dos órgãos de seu filho. Quando ela desceu para recepcioná-los, eles receberam-na com muita alegria, ela ficou feliz, mas percebeu que tinha apenas seis pessoas.

- Amor! Ou estou contando errado ou está faltando alguém! – Disse ao puxar Marcos de lado.
- Querida, esqueça isso. – Disse com bom humor.
- Como posso esquecer Marcos Viana Mendez?
- Querida, não consegui encontrar a sétima pessoa... – Ele encarava-lhe, Lourdes viu certa tristeza tomar-lhe o semblante e as palavras.
- O que foi querido?
- Ele morreu, infelizmente pouco tempo depois da cirurgia...
- Mas o que aconteceu? E qual foi o órgão?
- Não sei bem, mas acho que foi rejeição do órgão. – O pesar tomou-lhe a fala. – O órgão era o coração...
- Meu Deus, não!
- Querida não fique assim. – O pesar em suas palavras aumentaram ainda mais. – Veja como tem pessoas que te amam aqui e além do mais, olhe para seus novos filhos.
Ao olhar ela viu-lhes sorrir e Marcos os chamou para o abraço.

Com o passar o tempo, Lourdes descobriu o quão maravilhoso era ter seis belos filhos, se bem que alguns já eram bem avançados na idade que a de seu filho, descobriu também que eles não tinham os mesmos gostos, nem se pareciam com ele, mas aquele carinho que lhe dedicavam, vez em quando passando para visitar a mãezona Lourdes e as reuniões que faziam nos meses, sem contar as várias festas de aniversário que tinha por ano, tudo aquilo lhe foi preenchendo pouco a pouco. Além dos filhos ganhou também importantes amigos, pais dessas crianças que haviam sensibilizado-se com sua história e tudo que suportara por amor a seu filho.

Ela jamais esqueceu seu Cadu, já que jamais se supera a perca de um filho, mas descobriu que quando a gente se abre pra vida e deixa-se amar, ela nos mostra que até os espinhos da rosa servem para lhe realçar a beleza.

Comentários

  1. Paz do Senhor,

    Parabéns, pelo seu trabalho neste blog. Que Deus em Cristo Jesus continue lhe abençoando poderosamente.

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    Fica com Deus.
    Abraço em Cristo, Alexandre Pitante.

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