Vida pós morte [Parte V]

Lourdes voltou pra casa o caminho todo dizendo que o médico só poderia estar louco.
- Ele está louco sim, eu sei! – Seu rosto estava transtornado.
- Querida, entenda que ele só disse aquilo...
- Quer dizer então que você concorda Marcos Viana Mendez? E você viu sobre o que aquele açougueiro queria falar, meu filho nem morreu ainda e já querem esquartejá-lo!
- Não é isso querida, mas depois de tudo que o doutor André fez por nós, deveríamos pelo menos ouvir o que aquele pessoal tinha a dizer.
- Eu não quero saber de nada, eles querem tratar meu filho como um simples pedaço de carne! Como se ele não estivesse mais vivo. Justo meu Duzinho, meu bebê!
- Mas querida, nós fizemos uma promessa pro Cadu.
- Ele pode ter feito um pedido pra nós, mas quem decide agora somos nós e eu não quero ver meu filho despedaçado, é isso!
- Mas nós prometemos.
- Eu sei bem, mas... Eu preciso pensar Marcos, preciso mesmo. – Ela abraçou-lhe o pescoço chorando copiosamente.
- Tudo bem querida, me perdoe! Agora vamos entrar que você precisa descansar.




Eles foram dormir muito mais cedo do que de costume e Lourdes não ofereceu muita resistência em ser conduzida ao quarto. No meio da madrugada Marcos acorda sobressaltado e quando coloca a mãe no lado em que sua esposa dormira percebe que ela não está lá, ele joga então o lençol para o alto e sai descendo as escadas correndo direto pra garagem, mas quando chega lá tem a terrível constatação de que sua esposa havia pegado um ônibus para ir ao hospital.

Trocou-se rapidamente e foi dirigindo impacientemente para ver se encontrava a esposa em algum ponto, mas sem sucesso acabou parando no hospital. Quando abriu a porta do quarto pode ver Lourdes chorando segurando a mão de Cadu e implorando pra ele melhorar...
- Meu filho, mamãe te ama! O papai também, não morre filho, você tem ainda muito que viver. Eu nunca te disse isso antes, mas só tenho você por um milagre, pois mamãe tinha um cisto e não poderia ter filho de forma alguma...

Marcos lembrava-se muito bem, quando casaram eles não sabiam do problema de Lourdes e sonhavam em ter vários filhos, mas depois de várias tentativas sem sucesso resolveram consultar o ginecologista, foi aí que se teve a pior noticia que poderiam receber. Lourdes ficara mais arrasada ainda que Marcos que já cogitava adotar alguma criança. Algum tempo depois ela começou a fazer tratamento e durante dois anos persistiu até ter que interromper quando conseguiu um serviço.

Um mês após estar trabalhando começou a sentir enjoo com frequência e frequente necessidade de ir ao banheiro, comprou um teste de farmácia mesmo, depois de seus colegas de trabalho insistirem que estaria grávida, ela fez, mas sem querer acreditar muito para não se iludir. Ficou muito feliz ao descobrir que estaria grávida, quando contou aos colegas eles vibraram de felicidade, mais ainda seu marido que só faltou sair pagando charuto pra todo mundo. Porém Lourdes só deixou-se tomar por essa alegria quando a constatação veio pelo médico através de exames mais concretos.

- Porém, filhinho, mamãe teve de fazer uma escolha muito difícil, pois anos depois de você ter nascido, fui ao médico com suspeita de estar grávida, mamãe pensou que fosse dar um irmãozinho pra você! - Marcos ficou hipnotizado vendo sua esposa falar com tanto ímpeto enquanto segurava a mão de seu filho entre os dedos e sorria ao falar de seu devaneio.
- Infelizmente, era um cisto e o médico me disse que eu deveria tirar o útero, pois ele poderia se agravar e foi o que fiz. Mas sabe, não me arrependo, mesmo tendo sofrido muito com minha gravidez de risco, mesmo tendo quase morrido enquanto dava a luz a você amorzinho. – Ela levantou os olhos. – Eu não me arrependi amor!
Marcos aproximou-se e segurando as mãos de Lourdes que tinha as de Cadu entre as suas, beijou-as e ficaram ali, até que ela adormecesse de tanto cansaço. Ao acordar viu que estava na cadeira e Marcos em pé ao lado da cama.

- Você ficou aí o resto da madrugada?
- Sim, mas não estou cansado, lembre-se que dormi um pouco a noite.
- Ah! Sim, que bom amor.
- Sei que você está sofrendo muito com tudo isso, mas você não fez bem em fugir a noite e ainda pegar ônibus, você sabe o quanto São Paulo é perigosa a noite, ainda mais você estando sozinha meu bem. Por que não pegou o carro?
- Porque não queria te acordar, você parecia tão cansado e como você precisaria dele para ir ao trabalho resolvi pegar ônibus mesmo.
- E posso saber que horas que a senhora fugiu?
- Só esperei você começar a cochilar e vim pra cá.
- Quer dizer então...? – Marcos ficou pasmado – Que quando dei por sua falta você já estava aqui há muito tempo.
- É que eu não podia dormir em casa, no sossego, enquanto nosso filho estava aqui abandonado e descrente, a mercê desses açougueiros.
- Mas você precisa descansar meu bem, se não o seu corpo não vai aguentar.

Ouvindo isso Lourdes deu um pulo e ficou de pé dizendo que já estava bem e que se Marcos quisesse ir pra casa poderia descansar um pouco antes de ir trabalhar que ela ficaria ali cuidando do filho, ele foi, afinal já sentia o cansaço dominando-o, mas não sem antes convencer a esposa a alimentar-se.

Pouco tempo depois doutor André entrou e bateu de leve na porta.
- Licença, será que posso entrar?
- Claro doutor, como não?
- Aproveitando que a senhora está sentada gostaria de falar algo muito importante.
- Se é sobre...?
- Escute, seu marido me falou do pedido do seu filho...
- Aquele traidor.
- Como a senhora não quis falar com o pessoal do CNCDO preciso que saiba que doar órgãos é muito importante, afinal existe uma imensa fila de pessoas que necessitam de transplante, algumas infelizmente devido a demora acabam morrendo nessa fila. E com a nova Lei dos Transplantes existe apenas uma Lista Única de receptores Regional controlada pelas Secretarias Estaduais de Saúde. Fique sabendo ainda que seu filho pode salvar até sete vidas.

- Mas o meu filho vai ficar todo despedaçado.
- Não se preocupe que isso não vai acontecer, as pessoas muitas vezes tem medo de permitir a doação de algum parente por achar o mesmo que a senhora, mas para retirar os órgãos e feita uma cirurgia normal e depois da retirada tudo é fechado e aparentemente não dá para perceber tomando todos os cuidados de reconstituição do corpo, obrigatórios por lei. – Aquela conversa aos poucos foi acalmando Lourdes. - O corpo do Cadu ficará como antes, sem qualquer deformidade. A senhora poderá fazer o funeral normalmente sem nenhum cuidado especial. – Isto fez com que ela se alterasse e começasse a gritar:
- Funeral nada! Meu filho ainda está vivo, será que o senhor não percebe?
- Tudo bem, vou deixá-la a sós, mas pense com carinho, esse era o desejo do Cadu.

Os dias se arrastavam e Lourdes passou cada dia a ficar mais tempo na UTI, parecia até que estava internada, acordava as cinco deixava toda casa arrumada e ia para o hospital voltando só a uma da manhã. Ela já não deixava que as enfermeiras limpassem seu filhinho, ela mesma preferia fazê-lo. A nova interna praticamente passara a morar ali. Doutor André tentou ainda algumas vezes mansamente falar-lhe sobre o assunto de doação de órgãos e sua importância, mas ela não permitia que ele conseguisse falar, tampouco quis receber a Equipe de Captação de Órgãos.

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