Vida pós morte [Parte VI]

Certo dia, já enfezada por tentarem obrigá-la a fazer algo tão horrível com seu filho, decidiu pedir que trocassem o médico sob acusação de quebra do hipocráto, não obteve muito sucesso com sua ação, porém doutor André não voltou mais a incomodá-la sobre o assunto.

- Amor, nós precisamos doar os órgãos do Duzinho.
- Mas que inferno! Já não bastava o doutor André me incomodando no hospital, agora até você vai me perturbar também? Será que não posso ter descanso em minha própria casa? Meu Deus!
Marcos a segurou pelos ombros e chacoalhou-a.
- Será que você não percebe que eu também estou sofrendo com tudo isso que aconteceu? Ele também era meu filho!
- Você não precisa gritar comigo. – Ela começou a chorar. – Eu só não quero que levem meu filho antes do tempo. Quem sabe ele não melhora?
- Me desculpe amor. – Marcos abraçou-lhe e beijou sua testa. – Agora vá dormir um pouco que você está muito cansada.



Lourdes passou a ficar ainda mais tempo na UTI, pelo tempo excessivo que despendia aos cuidados do filho acabou esquecendo o marido, ou melhor, cuidava tanto dele como agora da casa, que havia ficado abandonada, já que agora tinha tempo apenas para passar naquele local, vivia em função de seu filho, pois não conseguia deixar de crer que ele se recuperaria com tanto desvelo que lhe dispendia.

A porta abre-se repentinamente.
- Olá Dona Lourdes, como o Carlos está?
- Ah! Mais ou menos, mas acredito que logo terá uma melhora. – A cara de surpresa era imensa.
- Ah! Sim, me desculpe não me apresentar primeiro. Sou Consuelo, mãe de Fabinho.
Lourdes sentiu um arrepio ao ouvir o nome do jovem que havia causado todo aquele problema.
- Será que posso sentar?

As duas tiveram uma longa conversa e Consuelo começou a contar a história de seu filho. Fabinho, sempre fora uma criança ativa e bem independente, desde os 6 anos trabalhava na roça, todos os dias, pra ele não havia tempo ruim, e enquanto os amigos aproveitavam a infância ele preferia labutar. Aos 14 anos resolvera vir sozinho pra São Paulo morar com um primo, mas dois anos depois ele passou a morar sozinho no interior de São Paulo, por ser muito esforçado conseguiu vencer em Sampa, mesmo com tanta competitividade. Pelo menos duas vezes ao ano ele voltava pra rever os pais que moravam no Pará.

- Este foi o motivo de minha demora, peço-lhe desculpas, pois queria ter vindo antes, mas tive vários problemas que me impediram estar aqui. Meu marido está bastante doente e ficou muito arrasado com a perca de nosso filho, depois de terminar as provas ele iria passar um tempo conosco...
- Oh! Sinto muito... – Lurdes pôs a mão sobre seus ombros.
- Obrigado pela compaixão, mas não foi para isso que vim aqui. Quero lhe fazer um pedido muito importante: doe os órgãos de seu filho. – Tudo ficou preto e branco para Lourdes que sentiu um frio assustador. – Sei que esse não é um pedido fácil, mas pense nas pessoas que a senhora pode salvar. Eu queria ter feito isso pelo meu filho, mas quando fiquei sabendo do acidente era tarde demais, mas você pode! Você tem essa opção.
Enquanto Consuelo falava, Lourdes permanecia cabisbaixa, ela então abaixou a cabeça de forma que suas cabeças ficaram paralelas e disse olhando em seus olhos:
- Lourdes, seu filho sempre estará vivo dentro de você e se você fizer isso fará com que ele dê a vida por outras pessoas o que é um gesto sem preço...

Desviando daqueles olhos profundos, Lourdes, conseguiu apenas fechá-los enquanto as lágrimas rolavam, quando os abriu para dizer algo Consuelo já não estava lá, foi quando uma ideia veio em sua mente, “só pode ter sido o Marcos que ligou pra ela” e saiu rapidamente do quarto, mas quando olhou no corredor não havia ninguém, menos ainda Marcos, que àquela hora deveria estar saindo do trabalho.

Aquilo a deixou surpresa, afinal, não havia sombra de ninguém e quando perguntou pra enfermeira, a mesma não soube dizer se havia visto entrar alguma mulher como a que Lourdes definiu, menos ainda reconheceu o nome. Ela conseguiu apenas chorar inda mais, mas tomou uma severa decisão: não doaria os órgãos de seu amado filho!

O tempo de tanta dedicação foi fazendo com que ficasse cada vez mais longe de seu marido, seu companheiro que esteve ao seu lado desde sempre, somando isso com o imenso desgaste físico que a possuía ela foi ficando cada vez pior e sentindo-se mais fraca, suas olheiras estavam assustadoras, agora sim era uma interna por completo.

Chegou o dia que já não suportando mais resolveu abrir o coração com o filho e por pra fora toda aflição que vinha sentindo, toda amargura que sofrera nos últimos dias, enquanto segura sua mão entre as dela. Com o rosto abaixado começou dizendo que não arrependia-se de nada que havia feito por seu bebê e caso necessitasse faria tudo novamente, sem importar-se com o preço que lhe seria cobrado, porém não estava sendo nem um pouco fácil ter que suportar tanta pressão.

As pessoas diziam que ela estava ficando louca, que já tinha passado dos limites, pelo menos era o que podia ouvir pelas costas ao passar na rua em que morava ou por trás da porta do quarto do hospital. Mas o pior era não poder estar mais com seu esposo, havia-o abandonado e ele cobrava-lhe muito, ela não fizera isto por falta de consideração, pelo contrário, amava-lho demais, por isso mesmo custava tanto, mas não podia simplesmente abandonar seu Duzinho, seu neném na hora em que mais precisava.
- Como eu gostaria que tudo isso terminasse, meu filho, a pressão está muito grande, acho que já não vou aguentar mais, deve estar na minha hora.

Para sua surpresa, quando ergueu os olhos ainda marejados, viu no monitor cardíaco que as batidas já não muito fortes iam-se diminuindo cada vez mais até o gráfico de curvas acentuadas transformar-se em uma reta contínua...
- Não! Meu filho, não me abandone, me perdoe! Não vá ainda! – Começou a gritar ao perceber o que havia acabado de dizer enquanto segurava-se seu corpo ainda quente, encostou a cabeça em seu peito definido, que antes era do tamanho de sua mão, tantas e tantas vezes colocara o ouvido ali e escutara aquele peitinho, era só ouvir um chiado para saber que seu filhote estava doente, mas agora nem chiado havia, ele não mais sentia aquele movimento arfante de dinâmica ascendente e descendente, não havia mais vida ali.

Os médicos entraram com urgência no quarto ao receberem o aviso de parada cardíaca, mas quando Lourdes os viu invadindo seu santuário começou a berrar, pois não queria largar seu filho e para que pudesse ser retirada do quarto necessitaram de dois fortes enfermeiros já que se debatia com extrema força, jogando-se para os lados.

Quando ia sendo levada para fora percebeu que uma lágrima rolava modestamente no rosto de seu filho e, embora os médicos não souberam explicar o motivo posteriormente, ela soube o que tinha acontecido, seu filho não apenas a ouvira, como entendera tudo o que dissera, ela percebeu que ele resistira todo aquele tempo por ver seu sacrifício por ele. Aquela lágrima significou muito mais que tristeza, simbolizou que por ela ter desistido de lutar por Cadu, ele também desistira e por isso partiu de uma vez, a única coisa que ainda o prendia ao fino fio de vida era o esforço de sua mãe em insistir com ele.

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