Depois de acender a luz

By George

Não aprendi dizer adeus. Talvez seja sertanejo demais pra você, mas pra mim é a pura verdade. E pode apostar que não vou me acostumar. Mas diferentemente deles, tenho tanto pra dizer que o silêncio nunca será o bastante. Talvez algumas palavras fujam, talvez eu as oculte propositalmente. Nesse balanço vocabular espero me fazer entender.

Lembra quando eu tentei te convencer que “O Lutador” era um bom filme? Talvez pra você só tenha representado uma discussão de gosto, superficial e idiota como tantas outras. Mas pra mim era algo maior. Era uma discussão sobre nós dois. Sobre o quanto a gente poderia compartilhar. O quanto era dar e receber. Várias diferenças poderiam passar. Mas aquele ponto era crucial. Não que eu o achasse um ótimo filme, não que eu achasse merecido qualquer Oscar. Eu só queria saber de nós dois. Por isso o defendi tão vigorosamente. Mas a gente perdeu.


Se fosse um jogo a nossa vida seria hockey no gelo. Um amor quente num lugar frio. Uma hora se cansa, uma hora temos que descansar e o frio nos domina. A gente pode ir com tudo, correr, atacar, defender, brigar. Mas se ficarmos 10 segundos parados esfria. Cansa. E não adianta encher de pipoca e cerveja que só tende a piorar. Altas doses de vodka trazem de volta a sensação de calor, mas é passageiro.

Quando você passa muito tempo no escuro, depois de acender a luz sempre vem aquela sensação de cegueira. Aqueles segundos que fazemos caretas e buscamos proteger os olhos. Talvez o nosso amor tenha sido isso, muito tempo de luzes apagadas. Vivendo na escuridão com a falsa sensação de proteção, sem medo do escuro. E quando vem a claridade a gente corre de volta pra sombra como toupeiras gorduchas.

Não tentamos enfrentar a claridade. Nos acomodamos na caverna, como morcegos, empoleirados de cabeça pra baixo, esperando a hora de se transformar em vampiros, essa hora nunca chegou e nunca chegaria ou chegará. Desculpe, se quem pôs a venda em seus olhos fui eu, não era essa a intenção.

E quando a escuridão se torna pequena demais pra nós dois, você resolveu sair e não me levou junto. Preferiu me deixar com os olhos cegos. Mãos atadas. E lábios rachados. Sozinho e com frio.

Depois de você, vaguei perdido, cego, surdo e mudo por aí. Buscando respostas ou curas. Deixando um rastro de sangue das feridas que deixaste no meu corpo.

Depois de tomar banho numa banheira cheia de mercúrio cromo, horas e horas de terapias intensivas e livros de auto-ajuda. Ouvindo sertanejo e pagodes antigos. Eu me apaixonei pela pessoa errada. É semrpe isso. Mas estou melhor.

Já vejo vultos e figuras turvas, transformo gritos histéricos em leves sussurros e até balbucio algumas palavras. Continuo perdido, mas em terras férteis. Não preciso mais de você pra me guiar, nessa hora me arrependo de escolher você no lugar de um cão-guia. Tenho que repensar escolhas, refazer cronogramas, planejar uma vida nova.

Como diria Nina Simone: “It’s a new dawn, it’s a new day, it’s a new life for me and i’m feeling good”.

Autor: George GD

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