Fotos perfeitas sem edição de imagem - Thriller [Parte II]

- Hum...?! – Após um tempo de silêncio Jean fez um som para motivá-la a continuar.
- É que...
Kyllie sentiu que Jean aproximara-se inda mais do telefone querendo saber sua resposta, que teria de dar agora, uma vez começado.
- Oras... Porque eu fiquei com vergonha quando as luzes se acenderam, eu não queria parecer fácil e também achei que você só queria se aproveitar de mim quando eu estava com medo. É isso! – Sentiu as palavras saírem disparadas, mas rápido do que gostaria - o registro havia quebrado pela carga demasiada de força ao tentar fechá-lo, deixando livre a passagem afoita daquela enxurrada de consoantes e vogais.

Ela ouviu um silêncio constrangedor que logo foi quebrado por Jean.
- Aproveitar, eu? Nunca! - Bancava o ofendido. - Queria apenas ser um ombro amigo...
- Sei! Ombro, peito, braço, boca... - Kyllie soltou sua risada melodiosa, depois de ver que ele não ligara muito para sua atrapalhada explicação.



A música de sua alegria atravessou analogicamente o cabeamento e na velocidade da luz chegou do outro lado fazendo cosegas nos ouvidos de Jean que espalharam-se por todo corpo, deixando-lhe ainda mais embeber. - Por isso achei melhor deixar quieto.
- Mas aí, quando chega em sua casa você me beija do nada?
- É que percebi que podia estar errada e como você foi super fofo e educado, vi que merecia me beijar.

- Só não entendi uma coisa.
- Diga Jean.
- Se você gosta de filme de terror então porque ficou com medo?
Kyllie sentiu-se grata dele ter mudado o assunto tão repentinamente, já que se constrangia.
- É que eu gosto da ação, mas quando as cenas são muito fortes me dá um medo, ainda mais por causa daquelas musiquinhas assustadoras que sempre tem, eu as odeio.
Jean começou a rir daquela explicação tão simplória, achando graça no fato dela gostar de algo que lhe assustava - mas vai entender? As mulheres são mesmo assim.
Mergulhado Jean estava na conversa até ser interrompido pelos miados desesperados de Yakut que parecia sofrer maus-tratos, fazia uns sons estranhos como os que lhe ouvira das duas outras vezes.

- Linda, vou ter que desligar, minha gatinha deve estar com algum problema.
- Tudo bem, os gatos que se entendam! - Começou a rir do gracejo.
- Nos vemos amanhã? - Jean perguntou rindo também.
- Claro!
- Passo aí pra gente ir junto pra facul.
- Ficarei te esperando, beijos.
- Certinho, beijos! - Ele bateu o telefone com força ao ouvir um estrondo, olhou o céu e viu-o ainda carregado, desceu as escadas correndo, rumo a cozinha, de onde vinha o som.

- Mas o que você aprontou aqui, rapaz?
A porta do armário da parte de cima pendia torta, pensa apenas por um pino, o outro quebrara, a ração de Yakut espalhada pelo chão, o saco que havia sido rasgado por suas afiadas unhas, quatro cortes certeiros, encontrava-se caído ao chão e tudo estava uma bagunça só.
- Caramba, Yakut! Não posso tirar o olho de você um minuto que já apronta?
Ela lhe lançava um olhar de desafio, como se dissesse "não sabia que horas passaram a valer por minuto".
- Sabia que deveria ter te levado ao pet pra contar essas unhas. E agora, heim? O que faço com você?
Ela apenas olhava-lho com aqueles grandes olhos azuis e a medida que ele brigava consigo abaixou a cabecinha, com olhos de inculpabilidade, um sonoro "hum..." sinalizou seu pedido de desculpas.

- Tudo bem, menina! Vem cá, vem! - Instantaneamente ela saiu de seu estado de tristeza e correu para Jean que a tomou nos braços. - Sei que a culpa foi minha, afinal esqueci que você estava com muita fome, já que não come nada desde manhã, mas como sou desalmado, bebê. - Disse enquanto pegava seu pratinho para encher de ração, a pôs no chão e foi aproximando-se do saco rasgado.

Colocou o prato perto de Yakut, ela foi animadamente em direção ao mesmo, mas depois que o cheirou afastou-se com desdém, perguntou se ela queria dela e a viu miar em reprovação, quando apontou o outro saco no armário outro miado, mas esse de felicidade.
- Mas você é uma sacaninha, me rasga um pacote de ração e agora que caiu no chão não quer mais comer? - Disse enquanto colocava da outra ração. - Você sabe quanto custa um saco de ração, Yakut?
- Hum...
- Você está muito mimada, sua folgada! E o pior é que eu que estou te estragando. - Suspirou Jean ao encher o pratinho.

Jean falava com Yakut enquanto limpava a bagunça, ela apenas comia e vez em quando lhe respondia com um "hum..." pra mostrar que apesar da fome lhe prestava atenção, ele disse que deveria ter se tocado de não deixar a ração justo na parte em que a porta estava com defeito nas dobradiças.

Depois de também ter comido, resolveu assistir algo, mas quando foi ligar a TV a luz falhou algumas vezes, até novamente ficar mais forte e isso repetiu-se, ficando ainda mais brilhante cegando-o, até que a lâmpada da sala estourou, ele se protegeu com as almofadas para escapar das farpas de vidro quente que voaram pela sala, mas nenhuma chegou a acertá-lo - a energia acabara de vez.

Não tendo mais o que fazer, foi para cama deitar-se, fechou os olhos, mas sua mente ainda estava a mil, pensou várias coisas enquanto esforçava-se para calar os pensamentos, tudo estava silencioso, podia apenas ouvir o tic-tac do relógio que se arrastava por toda casa, passos lerdos e pesados junto com um som metálico, na cozinha, na sala... mais próximo, no corredor... mais próximo, no sótão... mais próximo, na frente de sua porta... mais próximo... ouviu um uivo, assustado e com raiva jogou um travesseiro na janela e tapou a cabeça com o edredom para tentar parar as passadas.

O relógio, que impetuosamente o perseguia, queria apenas avisar que passara da meia-noite; foi quando conseguiu, por fim, pegar no sono. Percebeu-se então deitado, sem controle dos movimentos, seu corpo estava pesado e duro preso à cama, uma sensação ruim começou a tomá-lo, sentiu-se asfixiado, tentou gritar sem poder, perdera o dom da fala. Lembrou estar numa paralisia do sono e tentou acalmar-se para ter um sonho lúcido, respirou com calma, começou a ouvir várias vozes, como se muitas pessoas gritassem ao mesmo tempo desesperadas, essas vozes lhe cercavam, gritos doloridos, alguns agudos e outros mais graves.

Pareceu-lhe ouvir vozes de crianças cantarolando uma estranha canção que, de certa forma, lhe pareceu familiar, onde contavam de um a dez. Seu coração disparou, sentiu um espasmo que fez o corpo dar um solavanco, um grito tão terrorífico se fez ouvir, começou com uma lamúria, choro, elevando-se sobre todas as demais vozes - acompanhando o grito sentiu um arrepio da ponta da nuca, descer rasante até a ponta do dedão. O grito ficou cada vez mais alto e agudo restando apenas um grito que ele não conseguiu definir do que era, até parecer estourar-lhe os tímpanos, seu corpo começou a tremer e depois de muito esforço conseguiu mexer um dedo e, assim, pôde despertar daquela alucinação hipnapômpica.

Sentindo o corpo mole e ainda pesado, conseguiu apenas virar para o outro lado da cama e, respirando aliviado, voltou a dormir rapidamente, mal o sonho sobreveio, caiu em num sono hipnagógico, seu corpo ficou solidificou-se novamente, sentindo-se marmorificado, sem nenhuma reação, pode apenas ouvir uma voz desconhecida chamando-lhe do outro lado da parede, próxima a porta que se encontrava aberta - parecia que essa alguém lhe espiava, aguardando apenas ele ir de encontro a si - forçou-sse ao máximo, com todas as forças que sentia não ter, e conseguiu despertar bruscamente.

Dessa vez, por maior que fosse o cansaço resolveu escorregar encosto da cama acima, até conseguir despertar do torpor onírico, olhou ainda zonzo para a porta e viu chamas se aproximarem de si, duas grandes bolas de fogo mirando-lhe e chegando cada vez mais perto, até que repentinamente saltaram.


O sistema nervoso simpático foi ativado, automaticamente (SNA), pelos adrenorreceptores que fez o hormônio epinefrina acelerar a respiração e o batimento cardíaco preparando-o para se livrar do perigo. Suas pupilas dilatas permitia-lhe ver bem mais do que gostaria daquela visão aterradora. O processo digestivo teve seu ritmo diminuto para que a energia fosse direcionada para o músculo esquelético.

Ao sentir algo cair em cima de si uma rápida onda gelada passou pelo corpo - que molhado de suor fez os dentes agitarem-se um contra os outros, o repentino frio eletrocutou-o - pegou aquele coisa mole e quente. Sentindo os pelos um a um eriçarem para aumentar o colchão de ar - espaço entre os pêlos eriçados e o corpo - numa tentativa de reter o calor que se esvaía, seu reflexo de autodefesa o fez rapidamente jogar aquilo no chão, para bem longe de si.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

3 Segredos da oração

Desconhecido ante a mim

A maldade em mim