O fragrante - Lembranças do que se foi [Intermezzo]

Simie saiu do banho refrescado pela água gelada do chuveiro - incrível como em poucas semanas o tempo havia mudado radicalmente, há apenas alguns dias estava tão frio, agora viera esse calor insano que o obrigava a tomar vários banhos por dia para torná-lo um pouco mais suportável.

Colocou uma camisa azul borrada de marinho deixando-a aberta e um curto short jeans com a barra italiana da D&G - moda lançada para o verão de 2010, mas que persistira. Seu corpo esculpido em mármore estava bem exposto para o vento que chegou empurrando as brancas cortinas da sala que flutuavam ao seu passar, riu ao lembrar o quanto caçoavam de sua brancura - ele não importava-se, era essa sua cor, o alvor da inocência.




Pegou o perfume e cobriu-se com suas baforadas, lançando-o nos lugares mais estratégicos - atrás das orelhas, de ambos os lados do pescoço, sobre as costeletas, nos pulsos, as dobras do braço, no peito, costas, na palma das mãos e, por fim, em cima da cabeça - ele passava nos lugares onde o perfume durava mais e onde certamente o olfato de uma garota seria atraído quando a cumprimentasse. Samie gostava de abraçá-las quando as cumprimentava, pois além de transmitir o seu calor - ficava fácil saber se rolaria algo legal entre os dois, pela química que surgia pelo encontro de ambos os corpos -, fazia com que as mesmas fossem tomadas por seu perfume tão peculiar.

Esparramou-se no sofá, o vento trouxe-lhe um odor agradável de lembranças, seu perfume cítrico refrescava-o inda mais, o clima estava muito agradável agora, já que o sol dera uma pausa para descanço, entretanto uma ruga dúbia formou-se em sua fronte, ao lembrar-se da garota que lhe havia ido entregar o perfume.
- Ela não me é estranha... - Disse ao abrir os olhos sentando-se no sofá, deu play em seu ipod touch e mergulhou no som deliciando-se com cada faixa de Lost in time, o último disco de Eric Benét.

O vento cobriu-o, parecia estar mais leve, sentiu-se flutuar, na verdade, tinha a impressão de que podia nadar no vento palpável e assim foi, rumo as brancas nuvens que se juntavam brincando de ciranda no corpóreo azul celeste. Atravessou a fofura de uma, esbarrou em outra e entrou também na roda.

Súbito, sentiu seu corpo pesar, ele foi se tornando cada vez mais denso, o chão reclamava-o de volta a sua gravidade, o céu começou a pesar sobre si, sentiu a grande massa de Atlas difícil de ser segurada, aquelas 200 toneladas o empurraram para baixo e, pra onde todo santo ajuda, ele caiu - uma sensação maravilhosa aquela - dando um pulo saiu do sofá e correu para pegar seu Corby, vasculhou a agenda - sim, ele finalmente lembrara quem era a pequena.

Observou que começava a escurescer, apesar de ter parecido apenas um cochilo, viu que dormira até demais. O telefone chamou algumas vezes sem ninguém que o pudesse ouvir, depois de alguns toques conseguiu falar com Cindy, sua consultora, cumprimentou-a e pediu para que chamasse Jannie, sem sucesso deixou-lhe o msn e o número do mob para que desse a Jannie.

Ficou chateado consigo mesmo de não ter reconhecido-a quando Jannie foi levar-lhe o perfume, como ele podia ser tão distraído? Será que não havia visto seus olhos pidões? O pior é que vira, mas acabou interpretando seus olhos de desejo por ansiedade de receber e ir embora, realmente ele era um tremendo desligado - um mané.

Voltou para o sofá e a sua terapia de Benét repondo os fones no ouvido, a rememoriação o tomou, voltou no tempo no mesmo instante em que a vira pela primeira vez, em que ela o fizera perceber-se, porque ele como sempre estava distraído. Ele não havia percebido um certo interesse de sua parte nele, fora apenas educado e sorridente consigo - como era com todas as garotas - até sua mãe lhe rastrear.

Ele nem tinha como perceber, afinal, além da constante distração que lhe acompanhava estava interessado em outra guria. Porém, o fato de tê-la ignorada daquela forma o incomodou, ele precisava falar com Jannie e tentar resolver o mal entendido.

Já era muito tarde, quando conseguiu falar com Jannie, ele percebeu a forma estranha com que falou consigo e apesar de insistir de que não estaria com raiva de si, ele teve impressão do contrário - já que ela parecia falar obrigatoriamente consigo, monossilabicamente. Ele aguardou algum contato seu, coisa que nunca mais aconteceu.

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