Problemas com perfil fake 15 [O mistério de Feiurinho]

- Bem, estou dando um tempinho pra mim, mas disse pro pessoal lá em casa que ia passar uma semana aí...
Conn lhe falava aquilo como se pudesse fazer as batidas exasperadas do coração de Brent se acalmarem, como se fosse possível demove-lo do susto que o arrancara da cama tarde da noite.
- Você é louco? Foge de casa e ainda inventa essa história me metendo no meio mesmo depois do rolo de ontem!
- Fica sossegado que não vai pegar nada pro teu lado. – Só nesse momento Brent percebeu o quanto sua voz havia saído áspera. - É só não me procurar e se meus pais ligarem atrás de mim inventa algo.
- Mas Conn, onde você está? O que você vai fazer? – Brent começou a alarmar-se.
- Tenho que desligar agora que o cartão já está acabando...
- Con...?!


Brent acabou por perder o sono, embora estivesse cansado, ficou várias horas imaginando onde Conn poderia ter ido, ele tinha de saber, afinal eram amigos desde o primário - quando se conheceram - e daí pra frente continuaram na mesma classe, se não fosse por acaso eles davam um jeito de cair na mesma sala. Por mais que pensasse, frente ao computador, não conseguia resolver o enigma - nem mesmo o G-Maps tão eficiente o pode ajudar, como encontrar alguém que não queria ser encontrado? - até que acabou desmaiando de tanto sono, já sentindo tontura e mal estar por esforçar demais o corpo. Brent jamais imaginaria que ele estava em algum motor road hotel, já que era um dos lugares que ele mais abominava – talvez fosse autopunição.

A semana que passou foi complicada para Brent que via os dias se arrastando, tamanha sua preocupação, Conn não ligou-lhe mais e ele chegou a acreditar que ele sumira de vez, pensou em contar tudo para os pais de Conn quando lhe procurassem, já que não se achava apto a mentir pra eles, mas como não lhe ligaram teve de guardar a aflição para si mesmo e depois se contasse trairia a confiança do amigo.

- Hey Brent, cadê o mala do Conn?
- Ah... O, Conn?
- É! – Jacke arqueou as sobrancelhas estranhando a pergunta.
- Ele foi passar alguns dias na casa de um primo dele.
- Pôxa, mas que zique-zira bem na semana de jogo. - Tonny lamentou.
- Ih... O treinador não vai gostar nada-nada de saber disso. – And tensionou.

- Mas justo agora que ele estava com um ótimo desempenho. - Daves lembrou.
- É que ele não estava muito bem.
- Isso é mesmo muito estranho, ontem ele jogou tão bem. - Mouki entrou na conversa sem ser convidado, como sempre fizera.
Brent sentiu raiva daquele pivete que sabia como deixar as pessoas de saia curta, inventou que Conn pegara certa alergia e fora para lá se tratar com um especialista conhecido da família e desviou o assunto dizendo que tinha que estudar para prova de física que seria dali a vinte minutos.

Brent e todo time tiveram de aturar Elliot nervoso com o sumiço repentino de Conn que os deixara na mão e ainda teve de contornar as perguntas sobre ele durante o decorrer da semana.


Passados sete dias, os garotos conversavam antes da aula começar, quando surge o carro de Conn repentinamente na entrada, ele adentra os portões como se nada tivesse acontecido, roupa impecável, barba feita, perfumado e com um ar mais leve e de tranquilidade. Aquela semana lhe servira como um presente ímpar e fantástico que resolvera se dar, pode ouvir seus pensamentos, retomar as últimas discussões, comungando com seu eu e muito, mas muito tempo pra reorganizar os pensamentos.

Enquanto Brent se controlava para não arrancar os cabelos, Conn havia continuado a dirigir como se a estrada nunca tivesse fim, assim como a vida, dirigia pela estrada vital, querendo saber aonde ia dar, queria saber se tinha algum sentindo sua curta vida, até ali. Seus pensamentos vagueavam longe, dentro daquela potente máquina que, além de afirmar sua masculinidade, permitia-lhe ter controle de seu próprio destino, ele podia dar vazão ao seu instinto de gladiador reprimido dentro de si.

A beleza metálica lhe permitia relaxar enquanto colocava os pensamentos em ordem e por não exigir inteligência emocional – diferente de suas ficantes, ela era racional e finita -, pode desligar seu lado direito cerebral - tão inferior e inconveniente pra si, já que como todo homem ele sofria de alexitimia: dificuldade em identificar e verbalizar emoções - concentrando toda energia para tentar encontrar uma saída. Viajar em seu carro lhe permitia contemplar belas paisagens e ficar sozinho consigo mesmo, sem contudo patologizar a solidão.

- E aí guy está melhor? - Daves quis saber
- Melhor? - Conn não fazia a menor ideia sobre o que os caras diziam.
- É ficamos sabendo que você estava cuidando de uma alergia. - Vicky esclareceu.
- Alergia? - Quando olhou para o topo da escada viu Brent saindo. - Ah... sim, a alergia que peguei! Não era nada tão grava e logo me recuperei.
- Ótimo que você não morreu, pois assim o coach vai ter a chance de te matar com as próprias mãos! - And aproveitou para sentenciar.

Quando Brent vê que Conn afastava-se rindo da roda do ¡¡¡BØB!!!! corre em sua direção e lhe dá um abraço apertado.
- Nossa cara, mas o que houve aqui? Não precisa me apertar tanto!
- Foi mal maninho, mas estava com saudades de você, seu loução. Onde esteve, eu fiquei muito preocupado? – Seu tom era de confidente, pois não queria que ninguém soubesse do sumiço de Conn.
- Cara, precisava ficar um pouco só para organizar os pensamentos, vaguear em meio a solidão, ter um tempo pra mim, você entende?
- Sim, cara, te entendo. Ás veze eu também! – Brent abraçou o ombro de Conn, dando-se por vencido.

- E nada melhor que fazer isso dirigindo. – Conn pulou em sua frente. – Você deveria tentar isso vez em quando também.
- Chiii...! Fala mais baixo, se não o pessoal ouve e aí você será linchado.
- Ok, ok! Senhor preocupação.
- E o que aconteceu que você está um bagaço só?
- Vou nem te responder o porque seu irresponsável.
- Hey, calma aí dude! – Segurou Brent pelo pescoço e fez cafuné em sua cabeça.
- Me larga seu louco, você está bagunçando todo meu cabelo. – Depois que Brent conseguiu se soltar. – Esqueceu-se do mandamento número um de todo macho? Não bagunçarás o cabelo do teu próximo?
- Não estragou muita coisa não, relaxa guy!
- Você sabe que isso pode até dar morte... – Mal terminou de falar e percebeu o estrago ao passar a mão pelo cabelo. – Ah! Agora, sim, você morre!
- Mas o que foi mano? Ficou melhor do que estava! – Conn gritou para Brent que corria a toda atrás de si.
- Ai de você quando eu te pegar, seu maldito!

- Parece que as coisas voltaram ao normal. – Daves observou.
- Acredito que esses dois nunca vãos e separar. – Vicky completou.
As coisas realmente voltaram ao normal, principalmente no quesito mal humor do técnico.

- Foi muito irresponsabilidade de sua parte, rapazinho!
- Eu sei Elliot...
- Então por que fez isso!?
- Eu não estava muito bem.
- Espero que essa seja a primeira e ultima vez que isso aconteça, principalmente durante qualquer jogo que seja. Entendeu bem?
- Sim.
- Eu não ouvi, fala mais alto pra todo mundo também ouvir.
- Sim, entendi treinador, senhor!
- Agora sim, vocês estão dispensados, com exceção do Conn que vai treinar mais algumas horas.
- Mas horas, hoje estou muito cansado couch.
- Pensasse isso antes, amanhã teremos outro amistoso.
- E por isso...
- Que você tem que treinar mais.
O castigo de Elliot durou um bom tempo, mas não bastava apenas ficar depois das aulas, tinha também de chegar mais cedo para recuperar toda semana perdida e por abandonar o time durante uma importante amistoso.


O diretor havia recebido um e-mail de Dough dizendo que seu filhote estaria fora por alguns dias por motivos que não revelou, o que para Henry foi o suficiente para não se incomodar com o sumiço, já que ele nunca questionava os pais de qualquer aluno - Conn havia cuidado facilmente desse detalhe para não ser descoberto.

Após voltar começou a frequentar o terapeuta, com o único motivo de não perder seu cartão ilimitado, caso contrário não teria ido lá perder tempo, já que achava que tudo não passava de uma bobagem, “como um man, normal, como eu, que deve ser cheio de problemas vai poder me ajudar em alguma coisa?” e assim resolveu não falar o que realmente sentia. Claro que as seções não deram resultado, pois não havia sido sincero - sem cera, expondo-se os defeitos - algo essencial para que o “estudo da alma” pudesse resultar em solução, mas uma coisa aprendera com tanto tempo perdido: a disfarçar dissimulando o que sentia. Ele descobrira como ficar bem por si mesmo, bastava sair dirigindo para relaxar - essa coisa de psicologia era tudo balelagem.

Agora, mesmo depois do que conquistara, tudo o que passara, ali se encontrava, seu jazigo era a humilhação, afinal, não havia situação mais depreciativa que ter de lavar aqueles uniformes nojentos e sujos, quando estava quase terminando os pais chegaram e a coisa apenas piorou.

Postagens mais visitadas deste blog

3 Segredos da oração

Desconhecido ante a mim

A maldade em mim