Problemas com perfil fake 20 [O mistério de Feiurinho]

- Antônio Francisco Lisboa realmente existiu, era escultor barroco e filho do arquiteto Manuel, entretanto, tudo o que se sabia sobre ele – inclusive sua doença – não passava de causos que foram romanceados nas mãos de Bretas.

Segundo as lendas, ele tinha as duas mãos paralisadas, fato registrado por alguns viajantes quando estiveram em Minas, porém, nenhum documento ou texto confiável da época confirma o mito ou dá detalhes, nem mesmo os poetas árcades mineiros contemporâneos a ele, como Tomás Antônio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa e Basílio, se quer o citaram.

Mesmo fundado em lendas e citações paupérrimas, Bretas, conseguiu a incrível façanha de criar um relato minucioso sobre esse vultoso personagem – a quem apelidou de Aleijadinho – que foi publicado no Correio Oficial de Minas.


- Segundo a biografia – Neste ponto ele fez questão de enfatizar a palavra fazendo aspas com os dedos. – de Bretas, a partir dos 47 anos, Aleijadinho teria sofrido uma doença desconhecida, provavelmente sífilis ou lepra, que fizeram os dedos e dentes caírem, seu corpo encurvar, a única forma que conseguia andar era ajoelhado e para tentar diminuir a dor, se mutilava, transformando-se em pouco tempo em um verdadeiro monstro. Para construir suas obras, teria feito-as com ferramentas amarradas aos tocos do que lhe sobraram das mãos, criando as mais belas artes do barroco mineiro.

- Professor até aí não ouvi nada de diferente do que me ensinaram. – Lady afirmou.
- O problema está exatamente aí, vocês estão tão acostumados com o que lhe contaram que não pararam para atentar para o quão incrível é a essa história, aliás, foi por isso mesmo que ela ficou notória, concedendo várias honrarias para Bretas.

- A forma como ele descreveu-o estava mais pra romance que biografia, pois utilizava as mesmas características do romantismo: o belo que surge através do vil, do feio. Não bastasse ser propriamente uma biografia romântica, ainda plagiava alguns outros romances, como o conto da Bela e a fera (do século 18), Frankstein, de 1818, e o Corcunda de Notre-Dame, de 1831 de qual sua descrição é muito próxima com a que Victor Hugo fez de Quasímodo.
Todos ouviam atentamente, quase não respiravam.

- Atentem bem para a descrição que Victor Hugo fez de seu adorável monstrinho. – Quando disse isso todos inclinaram o corpo para si. – “A careta era o próprio rosto, ou melhor, a pessoa toda era uma horrível careta: uma cabeça grande ouriçada de cabelos ruivos: entre os dois ombros uma corcunda enorme da qual o contragolpe se fazia sentir na parte frontal de seu corpo; um sistema de coxas e de pernas tão estranhamente tortas que se tocavam apenas por meio dos joelhos; pés grandes, mãos monstruosas.”

- Agora a descrição do monstro de Bretas. – A atenção, como se pudesse ser ainda maior, se tornou, pois todos queriam ver se realmente Carlos estaria certo no que falava, embora nunca dissesse errada uma vírgula que fosse, ele falava de algo muito mais sério, até mesmo se ele dissesse que uma árvore pode crescer dentro do pulmão os teria deixado menos céticos que desmascarar o herói da nação. - “As pálpebras inflamaram-se e, permanecendo neste estado, ofereciam à vista sua parte; perdeu quase todos os dentes e a boca entortou-se como sucede frequentemente ao estuporado; o queixo e o lábio inferior abateram-se um pouco, assim o olhar do infeliz adquiriu certa expressão sinistra e de ferocidade que chegava mesmo a assustar a quem quer que o encarasse inopinadamente. Esta circunstância e a tortura da boca o tornaram de aspecto asqueroso e medonho.”

Carlos olhou para a classe de uma ponta a outra, todos estavam silenciosos em demasia, aguardou um tempo para que a galera pudesse digerir as comparações e continuou.
- Ainda plagiando ideias ele foi até a renascença, pois assim como Michelangelo fez ao papa Julio II, Aleijadinho propositalmente deixou cair pedaços de granito na cabeça de um general que o vistoriava seu trabalho e como Rafael vingou-se de um desafeto usando o rosto do inimigo como modelo numa de suas obras.


- Mas, Carlos, se tudo é assim tão óbvil como você diz, então como essa história – Aqui Key fez questão de aspear com os dedos. – então como ela ficou assim tão importante? – Seu queixo estava altivo, desafiando-o a provar que tinha razão.

- Muito simples, por causa do governo que tentava desesperadamente encontrar exemplos para que os brasileiros se orgulhassem de sua pátria, através de personalides heroicas, o próprio Instituto Histórico e Geografico Brasileiro – o qual Bretas virou sócio-correspondente após ganhar o prêmio da Ordem da Rosa de Pedro II, que era destinado a grandes artistas nacionais – incentivava escritores a falar sobre os filhos notáveis das províncias verde-e-amarelas. Só a partir disso que o romance, belo e que causava reflexão, passou a ser considerada como documento histórico, sendo com o tempo reforçado por inúmeras teses de médicos, historiadores que ousaram falar do que também pouco conheciam, muitos estudiosos e intelectuais e do povo que insistia em atribuir-lhe o feitio de vários monumentos.

- Mas a história não para apenas na lenda que virou figura nacional. Independente de ser lenda ou não o que vocês acham dele como artista?
- O melhor! – Alguém gritou do fundo da sala, mas Carlos não conseguiu identificar quem era, embora conhecesse a voz suficiente para saber que era de And.
- Você concordam?
- Sim, professor, afinal, ele construiu as melhores obras de arte do barroco. – Stephie disse tento sobre si a atenção de toda classe.

- Mas alguém? – Olhou para todos e eles continuavam quietos, sem mexerem um músculo, talvez fosse o medo de dizer algo errado, pois cada vez que Carlos falava algo isso conflitava com o que tinham aprendido a vida toda, era demais pra aquelas cabecinhas pensantes, se fosse algo que tivesse malícia não teriam dificuldade alguma pra entender o duplo sentido, mas se tratando de algo sério preferiam manter silêncio lúgubre. – Muito bem Stephie, você acabou de dar a ideia atual que temos dele. Entretanto, antigamente muitos viam-no como um artista medíocre, que conseguira reproduzir simploriamente – com mãos, pés e rostos, principalmente os narizes desproporcionais e imperfeitos, coisa que o padre Júlio Engrácia fez questão de destacar, no século 19 – alguns dos imponentes monumentos europeus, que eram mais dignas de riso que de veneração.

- Essa tentativa de cópia é ainda mais nítida nas obras que se tem certeza terem sido compostas por ele, uma prova disso é a igreja de Congonhas que lembra a de Bom Jesus de Braga, em Portugal. Para adentrar ambas, passa-se por uma escadaria com várias estátuas sacras, mas enquanto a de Portugal tem inúmeras estátuas, fontes e três escadarias, a mineira tem apenas 12 profetas e três pequenos lances de escadas. Ainda assim lhe tratavam com benevolência, como o barão de Eschwege, geólogo alemão, que esteve em Minas em 1811, e mesmo achando as figuras de mau gosto e desproporcionais, evidenciou que isso não deveria ser levado em conta diante dos “belos dotes de um homem que se formou por si próprio, e nunca viu nada”.

- Essa posição mudou apenas no século 20, pois os modernistas o escolheram como símbolo genuinamente brasileiro e passaram a admirá-lo, mas não por suas obras e sim por sua história, principalmente por ser mulato, filho de um arquiteto branco com uma escrava, a genuína mistura de raças a la Brésil – coisa que Bretas em sua lenda romanceada, lembrara superficialmente.

- A ideia moderna que temos de Aleijadinho de que as esculturas eram feias intencionalmente, foram concebidas pelos intelectuais, pra eles o valor das mesmas se encontrava no artista avant garde que rompera com os padrões de beleza contemporâneos a ele, como protesto e crítica, expressando o que sentia dentro de si. Mario de Andrade, um dos mais inclinados a essa teoria, afirmou que ele era um "deformador sistemático", mas que possuía "uma riqueza e liberdade de invenção extraordinárias". O grande erro dessa interpretação está justamente aí, pois a ideia de gênio solitário que expressa sua arte original é a forma pós-modernista de enxergar os artistas atuais que são espontâneos na criatividade, sensíveis e diferentes - para não dizer estranhos - a interpretação romântica que deram para um artista barroco estava mais perto dos integrantes modernos da vanguarda do século 20.

- A arte do período barroco era desenvolvida por esforço coletivo para o louvor de Deus e não do artista, e nesse intento, escultores dividiam seu trabalho com outros colegas patrocinados pela irmandade da igreja, mestres assinavam os melhores trabalhos de seus aprendizes - o que era grande honra - e não havia preocupação de expor sentimentos nas obras, alguns lotados de serviços passavam para os amigos e os que aceitavam trabalhos sem saber realizá-lo contratavam quem o soubesse. Até mesmo Michelangelo contou com a ajuda de aprendizes e “profissionais” de toda a ordem, nalguns casos ele começava a desenvolvê-la para que os aprendizes a finalizassem ou fazia uma escultura menor  para que a reproduzissem em tamanho real - se não fosse assim, teria de viver muitos anos para construir todas suas obras.

- Quer dizer, então, que ele não passou de um artista medíocre que teve as artes valorizadas posteriormente por causa de intelectuais altamente nacionalista?
- Isso mesmo Jessy. Ele pode ter ou não contribuído para o barroco brasileiro, mas não era o melhor e fazia seu serviço, assim como os demais escultores, não davam a mínima pra expressar individualidade através de suas obras, trabalhavam como um gesseiro ou jardineiro o fazem atualmente, isso pode ser visto em várias igrejas mineiras onde suas obras não possuem assinatura, apenas quando se trata de agradecimento. - Carlos parou repentinamente, todo olharam para ele.
– Bem, pessoal, por hoje é só.
- O que professor? – Tonny disse surpreso.
- Mas já? – Foi a vez de And reclamar.

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