Problemas com perfil fake 27 [O mistério de Feiurinho]

Tonny levantou-se e seguiu rumo à direção descrente de todos. Ele havia mudado desde que viera pra essa escola, isso era verdade, mal reconhecia a si mesmo. Alguns meses atrás não se imaginaria fazendo tudo o que fez, se alguém lhe tivesse dito jamais acreditaria, mas as situações o haviam compelido à isso – ledo engano, tudo fora causa de sua má escolha e depois diante de tudo que aconteceu escolhera não reagir – o que também fora sua opção. De tudo que tinha passado aprendera que a única certeza que temos da vida é que o que permanece é a constante mudança.

- Oi Marcie, o que o diretor quer comigo?
- Ele não disse nada, mas tem uma mãe aí que insistiu em falar contigo e o Elliot está lá dentro também.
- Caramba, estou lascado! – Disse pra si mesmo. – Mas como me rastrearam tão rápido?
- O diretor deu ordens expressas para que o avisassem assim que você entrasse na sala, pelo jeito você aprontou alguma grande dessa vez, heim Tonny?!
- Eu não aprontei nada, mas será possível que até você, Marcie, não acredita mais em mim? Poxa vida, estou desmoralizando mesmo.
- Acho que sou a pior pessoa pra acreditar em você, não acha Tonny? – Disse lhe sorrindo. Marcie havia se tornado "amiga" de Tonny devido a constância de vezes que teve de vê-la ultimamente, como ele era uma pessoa comunicativa e simpática, logo ganhara a empatia dela. – É melhor você ir logo, porque faz tempo que estão te esperando, parece que é muito sério.
Tonny engoliu em seco, afastou o colarim que enforcava o pescoço e seguiu rumo ao matadouro, ovelha muda, sem opção de volta.


- Até que fim chegou, senhor Evans, faz já algum tempo que o estávamos esperando. O que aconteceu para que se atrasasse tanto? – Disse-lhe Henry assim que abriu a porta.
Tonny olhou em volta e viu que a situação era complicada, a mulher que lá estava tinha o rosto transtornado, Ell estava tenso e Henry como sempre tentava manter postura de quem "co-mandava" a escola, ele estremeceu ao fechar a porta.
- Desculpe diretor, mas...
- Não precisa explicar, vamos direto ao assunto, Elliot!? – Henry cortou, atitude que deixou Tonny ainda mais nervoso.

Ell disse-lhe que tinha um assunto muito sério pra falar e sem mesmo esperar que ele se sentasse disparou: Mouki estava fissurado no esporte. Quando ele lhe disse isso Tonny respirou fundo, conseguiu engolir o cáquito que travava a garganta.
- Mas isso não é uma coisa boa? – Disse ao sentar sentindo-se mais relaxado.
- Claro que não! – Disse a mulher que havia permanecido imóvel. – Você não faz ideia de como ele realmente está.
- Como assim? – Tonny perguntou espantado sem entender direito o que a distinta senhora falava.
Ela lhe disse que Mouki só queria saber de futebol, passava o dia treinando – o que foi endossado por Ell – não queria mais saber dos coleguinhas, pois dizia que eles eram muito pernas-de-pau, até que resolveu se afastar de vez deles. Todos os dias após o treino, que sempre terminavam muito tarde, grudava no Playstation pra ficar jogando soccer até tarde ou ia pro micro pra pesquisar mais sobre futebol, assistir partidas, a tv mesmo que não assistisse vivia no ESPN.
Ell também lhe disse que ele era insistente na ideia de ir pro juvenil afirmando que os garotos do mirim não sabiam jogar nada e ele queria disputar futebol de verdade e não ficar na pelada com amadores.


- Quando meu filho começou a gostar de futebol, achei que fosse uma coisa boa e até o motivei a continuar, mas nunca pensei que ele fosse ficar assim. – Disse com lágrimas a escorrer pela face. – Depois que me separei do pai dele não consegui negar-lhe mais nada, mas agora estou perdida.
Tonny sentiu-se mal pela situação, mas o que ele poderia fazer?
- Sinto muito pelo que está acontecendo, mas o que eu tenho haver com tudo isso?
- É que ele te admira demais...
Ao mesmo tempo que o ego inflou sentiu-o ficando cada vez mais pesado até fazê-lo cair num poço sem fim, era a responsabilidade que aquela admiração cega trazia consigo.
- E ela acredita que se você conversar com o Mouki, talvez ele te ouça. Eu já tentei falar, disse-lhe que era pra pegar mais leve, que tinha que ter paciência com os outros colegas, mas ele não me ouviu, disse-me que estava ficando velho. – Nessa parte Tonny não conseguiu controlar-se e sorriu. – E isso me parece bem ser influência sua Tonny.

- Minha? Mas é claro que não Ell, você sabe que te respeito muito.
- Sei...
- Mas, então? Será que você pode conversar com meu filho? – Marie estava de joelhos e segurava a sua mão, num gesto de extrema humildade. – Ele está cada vez mais estranho, muito maduro e sombrio pra sua idade, já não parece mais meu sorridente, brincalhão e carinhoso Mouki, minha pobre criança. Estou muito preocupada e temo por sua saúde.
- Sim... – Tonny ficou totalmente sem jeito, não sabia uma forma melhor de responder e sabia que não poderia haver outra resposta além de uma que concordasse com o pedido daquela mãe desesperada.
- Muito obrigado, Anthony! – Ela lhe abraçou fortemente, o que o fez ficar mais confiante de sua resposta, o calor que sentiu naquele momento fez acreditar que podia qualquer coisa, inclusive ajudar um garotinho, embora não soubesse nem por onde começar.

- E aí, cara? – Jack cumprimentou depois que ele voltou ao em seu lugar.
- Já sei: está lascado! – And provocou.
- Antes fosse!
- O que foi que pegou, Tonny? – Daves insistiu.
- Fala logo, droga! – And já estava consumido pela curiosidade.
Ele contou-lhes o que acontecera, como Mouki estava cego pelo futebol e como tinha sido as coisas na sala da direção. Os garotos ficaram eletrizados, mas aquilo explicou muito sobre o repentino sumiço do leke.

O sinal tocou, embora já fosse muito conhecido da galera, aquele era diferente, o mais especial pra dizer a verdade, todos o aguardavam silenciosamente – por que os minutos mais aguardados são os que se arrastam? – até que para alegria geral ouvia-se soar o estridente barulho da liberdade, havia encerrado o período letivo daquele dia.
- Nossa como hoje está quente! - Ele andava meio avoado, não via a hora de chegar logo em casa e tomar um bom banho gelado para revigorar-se
 - Espere aí, guri!
Tonny já estava perto do portão pronto para entrar no carro, parou, olhou para trás e pos a mão sombreando os olhos para ver o que Ell queria.
- Tonny, preciso que fale com aquele molecote. – Ell estava esbaforido.
- Parece que você está ficando fora de forma, heim, Ell?
- Você é que anda como foguete, mas voltando ao assunto, fale com o Mouki, ele irá te ouvir.

- Eu sou a pior pessoa pra aconselhar quem quer que seja.
- Eu até acredito, mas não conheço melhor pessoa que você.
- Eu? Você acha que se eu pudesse fazer algo eu já não teria falado com ele? Eu não sei o que dizer, o que a mãe dele falou naquele dia arrasou comigo, mas o que eu vou falar pro carinha? Poxa, tenho muita consideração por ele, mas não sou tão bom com palavras. – Mal sabia ele que isso é uma característica absolutamente masculina.
- Tonny, para com isso! – Ell o segurou pelos ombros e lhe deu um chacoalhão. – Aja como homem, aquele moleque te admira demais, sempre fala que quer ser bom igual você e te defende com unhas e dentes quando os outros meninos falam mal do seu desempenho no jogo da final do campeonato. Outro dia até brigou porque uns garotos da turma dele insistiram em zombar de você, eram quatro e mesmo apanhando bastante ele conseguiu dar uma boa surra neles. Não posso ser tão duro com ele quanto sou com vocês, a mãe dele acharia que estou abusando da autoridade. Só estou te falando isso, porque também estou muito preocupado com ele.

Havia passado uma semana e Tonny ainda não havia conseguido falar com Mouki, como não queria dar satisfação a Marie não atendia mais nenhuma ligação, acabou por afastar-se do BØB, pois apesar de não comentarem nada sobre o acontecido, sentia o climão e achou por bem manter distancia até resolver o caso. A noite não conseguia dormir direito, sabendo que seu tempo estava acabando e ele precisava fazer alguma coisa – sem saber que sua escolha já estava feita: não faria nada. Quando colocava a cabeça no travesseiro lembrava de Jacke comentando que outro dia vira Mouki e ao cumprimentá-lo alegremente ele simplesmente lhe olhara como se não o conhecesse e depois de um tempo simplesmente extenso lhe dissera um oi sem jeito, "mas o pior foi ter visto seus olhos distantes", como se aquele pentelho que conheciam tivesse desaparecido pra sempre.
- Cara havia algo muito estranho naquele olhar... Na verdade não havia nada, era um olhar penetrante, mas vazio, sem brilho...


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