E o dia se fez trevas - In memoriam

Ontem fui dormir mais cedo, minha cabeça estava estourando de tanto doer na região superior. Acordei, como sempre, por volta das 5:40 am, pois é o horário que o despertador estava programado para apitar.

Sobre mim havia imenso cansado, a cabeça ainda doía e o corpo todo quebrado, pelo excesso de peso pego ontem na acadêmia, mas até que estava tudo bem na cama macia bem acompanhado de dois edredons, até que me desperta o celular resmungando, o sono misturado a fadiga permitiu-me apenas apertar um botão e pronto volto a dormir. Passados alguns minutos lá vem ele resmungar novamente, sim, eu havia apenas calado o despertador e não o desativado, dessa vez um pouco consciente disso, apertei o botão certo e o mob calou-se de vez.



Quase uma hora depois o celular volta a tocar, como deixo-o apenas no vibracall ele vive resmungando pra tudo, quando o peguei vi que era meu pai ligando, na hora que aperto o send pra atender ele havia desligado - "mas que coisa, além de me despertar antes das 7 am, ainda nem espera eu atender". Pensei que havia desistido, joguei o telefone pra um lado e do outro me esparramei deslizando edredom abaixo.

Mal me cubro e o mob volta a tocar, quando atendi meu pai pediu para que eu abrisse o portão para entrar, me vesti rapidamente e fui atendê-lo,  mas antes de abrir o portão olhei pra ver se eu não estava ouvindo coisas. Quem nunca ouviu alguém chamando seu nome e no fim das contas não era ninguém? Reza a lenda que é a morte e se você responde ela pode te levar de vez, sei que a morte ainda não deve saber usar celular, mas vai que a madame também se modernizou, bem o fato é que eu ainda estava aéreo por conta do sono.

Olhei para fora do portão e vi que meu pai estava vindo pela esquina, abri o portão e voltei pra sala para esperar ele, até que ao entrar diz-me que estava indo trabalhar quando encontrou nosso gatinho Mally, aka Gordão, quando o cachorro do vizinho que o acompanhava foi pro outro lado da rua e começou a balançar algo na boca.

Quando fui lá fora, havia uma menina desconhecida olhando o acontecido e no chão estava Gordão, com as patas quebradas, sem voz, numa cena de comover qualquer um. Aquilo pra mim foi inacreditável. "Poxa, o bichinho nunca saia do quintal e quando sai para dar uma volta acontece isso!?"

Meu pai foi trabalhar e Gordão ficou tentando se mexer, seu miado era apenas um som gutural abafado, a cena era tão terrível, nunca imaginei que iria ver bem diante de meus olhos Salem, o gato da Sabrina, aquele bichano falsificado que nem se mexia direito, pois agora estava bem ali na minha frente um ser com o pelo meio molhado, olhos granes, patas de frente imóveis, balançando apenas a cabeça para os lados e as duas patinha de trás, parecia mesmo um robô mal-feito tentando mover-se ridiculamente.

Devido ao forte impacto da cena entrei e fui avisar minha mãe sobre o acontecido já com a voz embargada, minha mãe também ficou chocada, mas não demonstrou muita reação porque as emoções ainda estavam anestesiadas pelo sono - pelo menos preferi pensar assim. Comecei a contar-lhe o acontecido com uma tristeza imensa, estava a ponto de chorar, perguntei-lhe o que deveríamos fazer com Gordão, pois ele não poderia ficar lá jogado daquele jeito.

Mamãe foi escovar os dentes e depois o levou para a caminha dele na área de serviços, após isso subi para acordar minha maninha e avisá-la o quanto antes, vai que não desse tempo para despedir-se, o estado de Gordão era muito grave. Acordei-a e lhe disse para escovar os dentes que precisava falar algo muito importante ao que me respondeu que não estava a fim de acordar as 7am, insisti que era importante.

Minha mãe percebendo que ela estava desperta, solta de uma vez: "...seu filho morreu". Minha maninha tomou um choque pela notícia repentina, sem nem bem ter acordado, mas instantaneamente percebeu o que acontecera, ficou triste, mas só até eu lhe contar tudo que eu sabia, pois depois que terminei começou a chorar.

Sabe, estava muito mal, mas depois de ver minha irmã chorando e perceber que ficara ainda mais abalada que eu, consegui manter-me forte o suficiente, já havia uma pessoa consternada por todos aqui em casa...

Após escovar os dentes ela pode ver por si mesma a condição tão sofrível em que Gordão se encontrava e chorar mais ainda. Ela ligou para meu pai e foi procurar o número de alguma clínica veterinária para podermos levá-lo para ser sacrificado, pouco depois meu pai retorna e lhe informo que há uma 24h, ele então diz que está voltando para levarmos o gato, mas antes mesmo que papai chegasse Gordão dá o último suspiro diante de mamãe e de minha maninha. Ao descer, após me ter trajado todo de preto, meu pai avisa que o moribundo partira de uma vez por todas.

Poxa, aquele gato era um danado, pestinha que subia nas cadeiras e se a gente não ficasse esperto na mesa também, sujava todo quintal, era desconfiado e vivia apanhando para tomar rumo na vida, mas eu gostava muito dele. Na verdade ele só ficou aqui em casa por minha causa, quando a mãe dele deu cria a uma ninhada de quatro filhotes, como ele era bem peludinho e fofo fiz questão de ficar com ele, enquanto dois foram para adoção e uma pra casa de um tio meu - que acabou jogando-a por aí ao invés de devolver-la para que a levássemos para adoção, só porque ela era ficou miando a noite toda. Também, pudera,  morrendo de frio, com fome e saudade da família.

Enfim, ele ficou, mas acabou virando um bicho muito mal-educado, só aprontava e Meow, sua mãe, ia na dele. Eu brigava demais com ele, dizia que ia dar sumiço no bicho, mas gostava pra caramba daquele gordo, com aquele rabão fofo dele - eu disse que o arrancaria para guardar de lembrança, mas é claro que não tenho coragem pra isso.

A tristeza em casa foi geral, parece que falta alguém aqui em casa pra fazer bagunça, Meow também está bem tristinha, ele sempre foi muito melancólica e havia melhorado depois de ter dado cria, mas agora está calada novamente com a perca de seu companheiro, era tão lindo ver o amor que um tinha pelo outro e quando ela estava ensinando ele a brigar? Ele sempre pensava que ia conseguir enganá-la, nunca conseguia, e ela nem ligava pra ele enquanto ele tentava de tudo para pegá-la de surpresa.

Enquanto escrevia essa postagem ele era enterrado, nalgum terreno baldio, meu pai insistiu para que eu fosse junto, mas preferi ficar em casa, já presenciei cenas muito fortes por hoje e já tive que enterrar outro gatinho nosso, a muitos anos atrás, quando minha maninha estava brincando com os filhotinhos e um deles acabou entrando debaixo de seu pé, o que foi morte na certa, como meu pai não estava sobrou pra mim. Envolvi-o numa sacola plástica, cavei um buraco num terreno que tinha aqui do lado e enterrei-o.

Sabe aquele ditado que diz que a gente só aprende a dar valor quando perde? Pois é, "Gordão, você vai fazer muita falta, "fi", seu sem-vergonha"...


Ósculos e amplexes,

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Desconhecido ante a mim

A maldade em mim