O fragrante - Destilando sentimentos [Parte I]

O tempo passara deixando marcas e emoções, instantes em cada olhar, carícia a cada gesto, novidade a cada amanhecer, tom a cada orvalho que escorre pelas folhas, som a cada cor do céu e vida a cada novo respirar.

Mas algumas coisas, por mais que persistamos mudam em absolutamente nada. Bem, a não ser em ficar mais crônicas, como no caso de Simie que por mais que tentasse não conseguia deixar de ser tão distraído, talvez sua morada não fosse mesmo aqui na Terra, afinal, nunca consegui manter a atenção prolongada na realidade a não ser nas artes - que são mais elevadas que os sentimentos.


A tarde fagueira estava convidativa, um sol dourado levedado com baforadas de vento hora frio, hora refrescante, fê-lo lembrar que por aqueles tempos a sakura da praça central da cidade, provavelmente, estaria a florir, exalando seu costumeiro odor apaixonante. O canto das aves formava uma fascinante trilha sonora, cheia de vida e felicidade, completando a estação que se estendia com sol, variando, brincando de rodas com as demais.

Apesar de macho alfa, Simie sabia a importância que as coisas belas tem sobre o pesar da vida, ele normalmente não a levava muito a sério, afinal, com tantas guerras e rumores de guerra, destruição e falta de amor e compaixão, não haveria melhor forma de encará-la do que rindo de sua cara tão feia.


A única coisa que fazia questão de levar a sério era a poesia do viver, deixava-se tocar pelo belo e verdadeiro por trás dos sorrisos e tristezas, o que não impedia de ficar com várias garotas, ele precisava preencher sua necessidade de carinho, era um bom amante e não ligava de derramar algumas lágrimas quando algo lhe tocava profundamente - as meninas o achavam ainda mais fofo, até porque não vivia chorando pelos cantos, mas por demonstrar que era forte o suficiente para transparecer seus sentimentos.

Apesar de bonito, ter pegada e beijar muito bem, não durava muito tempo com as garotas por achá-las meio fúteis e vazias, ele procurava algo mais profundo, alguém que de fato o completasse e fizesse sentir-se diferente do que realmente necessitava.

Enquanto dava seus vagarosos passos sobre o piso paralelepipedal, que formavam desenhos no chão da praça, permanecia absorto nos pensamentos. Ia pouco a pouco sendo guiado pelos pequenos trechos de sua vida tocados no ipod nano, músicas que falavam muito sobre si e vários instantes de seu viver, num instante percebeu cair uma flor de sakura, ergueu a mão em reflexo, antes mesmo do olhar, e suavemente uma flor pousou-lhe na mão.

Sentiu um déjà-vu, não conseguia-se recordar em que tempo do espaço abrira-se uma falha que o fazia retornar a um passada de lembranças desconhecidas que tornavam aquele acontecimento e lugar simplórios em algo tão especial e instigantes para si.

A lembrança não lhe permitia recordar com a devida atenção que seus esforços mereciam, tinha a sensação de que aquele era um lugar diferente, embora não tivesse sentido o mesmo das diversas outras vezes que ali estivera, aquele era um local de costumaz frequência sua, onde permitia-se deixar levar pelas palavras sopradas pelo vento, que voavam das páginas virtuais de Galaxy Tab.

Ao baixar o olhar viu raios de sóis saindo de madeixas lisamente compridas, com pontas encaracoladas, porém o rosto daquele anjo parecia triste, algo que destoava totalmente do brilho que de si emanava. Passou por sua memória um slide, pouco gasto, onde, certa vez, na mesma praça e no mesmo banco, alguém lhe perguntara se estava triste quando na verdade apenas lia concentradamente.

Pensou se ela também não estaria distraída, ocupada com alguns pensamentos, por isso o rosto sério, já dava meia volta, rumo a outro banco para não atrapalhar - embora a vista da sakura dali fosse muito mais contemplativa, pois ficava-se logo abaixo da mesma - quando sentiu algo que o impulsionava para que fizesse o mesmo que esse alguém, que não passava de um borrão em sua memória.

Aproximou-se da bela menina e pousando suavemente a mão sobre seu ombro lhe perguntou se estava tudo bem, ela não demonstrou nenhuma reação, mas quando olhou para si ele entendeu tudo, como luz que vai raiando dissipando as trevas até ser dia perfeito, sua mente foi sendo clareada pela luz daqueles olhos tão grandes e brilhantes, os borrões que antes lhe incomodavam agora tomaram forma e ele lembrou-se de muito mais do que gostaria.

Sentiu-se tomar por um violento desejo de a ter nos braços e quando notou ambos se abraçavam, mas ele não sabia quem tinha abraçado primeiro, talvez fossem ambos, seus corpos se atraíram e agora mantinham-se unidos pelo calor daquele abraço verdadeiro.


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