Cume do monte


Pelas asas da alvorada subi
Cheguei ao cume mais alto
Por fugir foi que aqui cheguei
Ao redor meus olhos contemplam
Montes, montanhas e outeiros
Altos, tão longe estão,
No alto é que se vê melhor

Do chão via apenas
Minha vontade, meu querer
Cheguei aqui e já não posso
Ocultando-me fugir,
Na luz não há sombras
Apenas verdade.



Subi o monte da dor,
Sob as sombras da morte,
Pra trás deixei pedaços de mim
Minha vontade desfez.



Marcas de sofrimento há no corpo
Na tristeza aprendi da alegria o valor
Posso tudo, até na dor me alegrar
Até na felicidade há dor,
Mas no meu sofrer apenas sorrir.


Enquanto subia, despi-me de mim
Quantos sonhos e desejos deixei
Pois não alcançavam o céu,
Como a terra estão distantes dos Teus.

A neve vem a terra encher
E as nuvens a vem regar
Tua palavra cumpre o que apraz
Jamais volta vazia


Semente que no chão morreu
Brotará, dando frutos
A cem, sessenta e a trinta.

Subi ao céu para alçar a Vontade
Mas Teus caminhos são tão altos
Como alcançar Teu querer
Se o devo fazer?


Ser tão diferente como És?
Como separar-me tanto assim?
Deixando a mim mesmo,
Negando o que sou?

No cume, que do monte alcei,
Sinto-me cada vez menor
Ao chão preso estou
Ante Tua imensidão,
Grandeza de Teu amor,
Teu peso me faz menor.


Vejo que a vida existe apenas na morte,
Amor a vida nos faz expirar.
A vida que tenho é sopro que esvai
Vapor que subiu junto ao nascer do sol
Dissipou-se ao calor da manhã.

Alegria traz tristeza e dor,
Amor apenas ódio e indiferença,
Sabedoria, arrogância e imprudência,


Vida gera morte,
Cuidado só traz feridas,
Força mostra fraqueza,
Grandeza só leva a queda.

Daqui de cima posso ver
Embaixo, a extremidade do mar,
Sopro que paira sobre as águas
Ante tão esplêndida beleza
Não há mais alternativa a não ser
Morrer, saltar do monte que cheguei.


Toda caminhada apenas fortaleceu
Pra não mais  a morte temer
Lanço-me as alturas, aos céus, ao ar
Mais denso que as nuvens vou mergulhar
Para em Teus braços descansar

O silêncio da vida é apenas
Paz, excedendo todo entendimento
Meu coração seguro está
O sentimento já não é de temor
Toda confusão e embaraço desfez


Junto ao chão é que posso crescer
Semente oculta cria raiz
Sob o pó me fortaleço
A gratidão me faz estar aos pés

Só cresço se estiver na terra
Rosto no pó, lágrimas regam o chão,
A grandeza está na pequenez,
A vida começou apenas quando morri.


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